«O Convento de Cristo-Rei no Porto»

«A Ordem de S. Domingos está a viver horas gloriosas na história da sua Restauração.

No dia 5 de Outubro, festa do Rosário, foi inaugurada a primeira parte do Convento de Cristo-Rei na cidade do Porto. É este certamente uma das obras mais interessantes pelo conjunto das circunstâncias em que se realiza.

Em 1834, com o advento do Liberalismo, eram os Religiosos Dominicanos expulsos do convento que tinham no Porto, no largo que ainda hoje conserva o nome de S. Domingos.

Um vereador da Câmara Municipal desse tempo, foi ele próprio com os seus homens proceder à demolição do convento. Agora a Câmara do Porto resgatou a sua culpa. O Dr. Luís de Pina, que há pouco deixou o cargo de Presidente dessa Câmara, conseguiu que fosse dado à Ordem o terreno suficiente para a construção da sua Igreja e Convento e obteve muitas outras facilidades para essa construção.

É na Avenida Gomes da Costa num local que é considerado o melhor da cidade. As obras iniciaram-se imediatamente, e na Semana Santa deste ano já a cripta da nova igreja era aberta ao culto. Agora foi a vez do convento e espera-se que dentro de seis meses a igreja esteja concluída.

Eram 5 horas da tarde quando o Rev.mo P.e Gaudrault, Vigário Geral da Província dominicana em Portugal procedeu à benção do novo edifício. Estavam presentes um representante do senhor Bispo do Porto, o Governador Civil, Presidente da Câmara, vários representantes de Comunidades Religiosas da cidade, representantes de todas as casas dominicanas de Portugal e muitos amigos da Ordem.

O Revº P.e Estevão, Superior do novo Convento, explicou o destino de cada local do edifício, fazendo uma síntese da vida do religioso dominicano. Depois da cerimónia os convidados inauguraram o refeitório do Convento num copo de água singelo mas significativo. Nesse momento o Padre Superior da casa agradeceu a todos os amigos e benfeitores o seu generosos concurso que tornou possível aquela obra em tão pouco tempo. E o Senhor Dr. soares da Rocha, em representação do Senhor Bispo do Porto, congratula-se em nome da Diocese pela presença dos Religiosos Dominicanos naquela zona da cidade.

A parte religiosa desta inauguração realizou-se na cripta da nova igreja. Houve missa solene e durante todo o dia ficou o Santíssimo exposto, tendo-se meditado continuamente o Rosário, pela paz do Mundo. às 22 horas, depois de uma Hora Santa, cantou-se o Te deum em acção de graças.

A obra vai prosseguir. É preciso acabar a igreja, que já está muito adiantada e continuar a construção do convento. Os Padres Dominicanos do Porto contam com o auxílio de todos os seus amigos e benfeitores. Todos unidos hão-de levar a cabo uma obra tão necessária».

in, O Facho, Outubro de 1952, nº52, Ano VI

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O Porto e S. Domingos

in «CRISTO-REI», Ano I, nº1, Boletim Religioso da Igreja de Cristo-Rei (Dominicanos), Porto, 1952;

Em 28 de Agosto de 1951, num aprazível terreno da recentemente urbanizada zona de Gomes da Costa, foi benzida por Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo Auxiliar do Porto  D. Policarpo da Costa Vaz, a primeira pedra da nova Igreja de S. Domingos, à Praça de D. Afonso V, e seu convento anexo, em rua nova que um dia, por certo, se deverá chamar de Princesa Santa Joana, que foi devotada Dominica e morreu em 1490, na cidade de Aveiro (festa litúrgica a 12 de Maio, desde o século XVII-1693).

Como membro da Comissão para a construção desta Igreja-Convento de S. Domingos, tive de dizer duas palavras no acto, por impedimento do Presidente daquela Comissão, Dr. José Nosolini, hoje ilustre Embaixador de Portugal junto da Santa Sé. E após a lembrança justa e grata da canseira frutuosa do Reverendo abade da freguesia de Lordelo do Ouro, em que a nova obra se ergue; de aludir ao esforço, para esta, do querido e devotado Superior dos Dominicanos no Porto Rev. Frei Estevão de Faria; e de recordar o indispensável e carinhoso apoio moral e material de tantos benfeitores, que então se indicaram (e cujos nomes estão sempre vivos no nosso coração), pude historiar ligeirissimamente o nascimento e morte da Ordem de S. Domingos no Porto, no tocante às suas casas de residência e de culto, começadas à 7 séculos e destruídas pela Câmara da cidade há pouco mais de 100 anos.

E disse, então:

« – A cidade destruiu-o, justo era que a cidade o reconstruísse. Daí, talvez a razão ou justificação histórica da justa e grande esmola que o Porto deu à Ordem de S. Domingos, este naco de terra inculta que estamos a ver e a calcar neste momento. A cidade estudantil deve ao mosteiro serviço especial: é que a capela dos frades dominicanos servia de «gerais» à liçãod e Moral que nela se lia em pleno século XVII».

Para melhor salientar o valor da antiga obra dominicana (que fora construída entre a igreja de S. Francisco e o largo actual de S. Domingos) no Porto, eis o que dela escreveu, em espanhol, o erudito beneditino Pereira de Novais, do século XVII, na sua obra Anacrisis Historial) publicada somente no Porto em 1913, pela benemérita Biblioteca Municipal):

«-Lo que màs engradece este observantissimo Convento em obsequio de las excellencias desta Noblissima Ciudad, es el amplíssimo Patio, ò Adrio, de su Iglesia, fundado sobre Magestosos y grandes arcos de Cantaria, Por su frande districto y anchuosos Passeos, de onde se franquea la Conversasson de todos los Cavalleros y Ciudadanos della, abrigados del Sol e llubia en su grandíssimo âmbito y debaixo de su techo, que es Sustentado desses Arcos y de Colunnas fortissimas que se sustentam. Aquí se ponem muchas tiendas de diferentes dijesy Joyales, que de las Partes de Italia y Venecia concurrem, al despacho de sus mercancías diferentes, Florentines y Napoletanes. Esta obra se acabò en el ano de 1320, segundo consta de Una piedra que està Puesta en uno de los arcos junto a la Hermita de Nuestra Sefiora de Las Nieves, a la parte de afuera, en frente de la Escalera que sube a la dicha Hermita, y se hiso sendo obispo desta nobilissima ciudad, D. Juan Gomez, Reynando el Senhor Rey D. Dionisio, en medio del qual está un Cruzero, de mucha veneración, com Una Imagem de Nuestra Senora Muy Devota, serrado com Balaustres de Mucho costo, en donde todos los anos, a tres de Mayo, se celebra la Inuencion de la Santissima Cruz, con mucha ostentación y adorno».

Quanto à Congregação dos Terceiros de S. Domingos, começou ela em 13 de Fevereiro de 1676, apenas com 15 irmãos (em lembrança dos 15 mistérios do Rosário da Virgem Santíssima), que reuniam na capela do Espírito Santo do mosteiro. Ao tempo de Pereira Novais era já 400 os irmãos, com seu Director espiritual, que era um religioso do convento; no temporal havia o Prior, o Vice-Prior, Secretário e certos irmãos chamados deputados.

Como fosse exígua e precária aquela capela, começaram os Terceiros a construir a sua nova Igreja, no dito pátio ou Adro onde se disse a primeira missa em 7 de Janeiro de 1685;  a primeira pedra fora colocada em 18 de Dezembro de 1683;  a construção durou, pois, dois anos e 20 dias. Nesta Igreja, com 5 altares, incluso o mor, foi muito venerada a imagem de um santo Cristo que notoriamente operara muitos prodígios e maravilhas na cidade do Porto.

Onde pára esta Imagem? Quem pudera encontrá-la, para a colocar na nova Igreja de S. Domingos! Creio que valeria a pena investigar sobre o seu paradeiro e do de outras coisas dos demolidos convento e igreja, no intento de conseguir-se o seu regresso ao lar!

Aí fica a sugestão.

Um dia havemos de lembrar também aqui o Convento das Religiosas Dominicanas do Sacramento ou Corpus Christi, em Vila Nova de Rei ou de Gaia, fundado no século XIV por Dona Maria Mendes Petite, mulher de Estevão Coelho, de Riba-Homem, pais do fidalgo Pero Coelho, valido de D. Afonso IV, celebrado na história da morte de D. Inês de Castro.

Mas, fica a história para a outra vez. Por agora, apenas relembro, como já um dia o fizera o Dr. Pedro Vitorino nas Notas de Arqueologia Portuense (1937), que a Igreja dos Terceiros, restos do conjunto dominicano portuense, fora destruído por necessidades urbanísticas – abertura da rua Ferreira Borges – em 1835. A demolição, para evitar espanto e paixões retardadoras, foi surpreendente. Cita o saudoso arqueólogo:

«-Uma madrugada, o desembargador José Ferreira Borges, num ímpeto, com um troço de trabalhadores da Câmara, fazia ruir a abóbada de tejolo do templo não dando azo a que algum devotado por ela intercedesse. Foi destruída de surpresa, como de surpresa tinha sido expoliada».

E o nome de Ferreira Borges lá está a esmaltar a rua que destruiu a Igreja….

Creio que esta ligeira evocação histórica justifica a participação material do Município portuense nesta obra da cidade, de que a mesma se honrará e ufanará quando lhe sentir a influência apostólica e assistencial naquele formoso recanto da urbe da Virgem!

Porto, 22 de Março de 1952

Dia de S. Basílio

Luís de Pina