O convento de S. Domingos e o plano urbano do Porto entre os séculos XIII e XVI

O convento de S. Domingos e o plano urbano do Porto entre os séculos XIII e XVI.

Autor: Afonso, José Ferrão

Da Confraria do Senhor Jesus, no Convento S. Domingos no Porto

Assistência em S. Domingos às Festas do Senhor Jesus

Pelos anos de 14… existia no mosteiro de S. Domingos uma confraria, denominada do Senhor Jesus Crucificado, a cuja imagem, e acerta água que os Frades benziam, se atribuíam grandes milagres;  e com grande afluência de confrades, e devotos, crescia diariamente as riquezas da mesma Confraria, pelas esmolas dos fiéis, que naquela água benzida pelos Rev.dos entendiam encontrar o remédio mais eficaz a seus males.

O zêlo, porém, do Cabido da Sé desta Cidade do Porto, fundado em motivos, e no principal de serem supersticiosos os ritos desta bênção da água milagrosa, proposta em Demanda contra os mesmos Padres de S. Domingos, e confrades da dia Confraria, lhes grangeou sentença de anulação e extinção da mesma Instituição e seus Ritos como supersticiosos, e Bula do Papa—em que igualmente é condenada a mesma Confraria.

Isto mesmo se prova do Acordão que se lê no Livro das Vereações de 1448, a f. 34 v. no qual se acha a memória de ter a Câmara pedido ao Cabido conservasse no altar do Senhor Jesus de S. Domingos o Crucifixo que ali se venera – e debaixo de cuja invocação existira até então a Confraria que fôra abolida em consequência da demanda com os Frades – e de ter o Cabido acedido ao Requerimento da Câmara;  e acordaram que tudo quanto dissesse respeito à Confraria se tirasse, ficando simplesmente a Imagem; com a claúsula porém de que a mesma  Câmara, em tempo algum, consentisse aos Frades ou qualquer outra pessoa o renovar da dita Confraria.

Eis aqui a origem, a meu vêr, desta assistência, fundada nesta devoção à imagem, que ficou preservada naquele altar e de algum modo pertencendo à Câmara, que assim salvou a sua existência no mesmo Altar; mas ela se verifica ainda:

Do Livro das Vereações de 1452 a f.29, se vê ter havido Sentença do Papa sobre a mesma Confraria, e Carta D’El-Rei para que se publicasse a mesma Bula ou Sentença do Santo Padre, dirigida aos cidadãos e povo da Cidade do Porto, a-fim de ser restabelecida a mesma Confraria de Nosso Senhor Jesus Cristo, no mosteiro de S. Domingos, assim como é em Lisboa, Évora e Coimbra;  e assentar-se em Câmara se elegessem pelos cidadãos, homens-bons, e povo, depois da pregação em que se deviam publicar as ditas Letras Apostólicas e Carta Régia, os oficiais da mesma Confraria, a saber: Mordomo, por um ano, e Escrivão; o que não obstante continua ainda a mesma questão entre Cabido, Frades e Câmara sobre a Confraria, a fls 31 e 33.

E a f.39 se acha Registo de uma Carta de El-Rei à Câmara em que lhe diz escreve ao Cabido, sobre a Confraria, segundo a Câmara lhe pedira, e não escreve ao Papa ao mesmo respeito por não crer que ele haja de vir contra aquilo que tem mandado. Data, em Évora, 5 de Abril de 1453.

No ano de 1559 a 21 de Janeiro, em Câmara, se fez a Eleição dos Mordomos da Confraria de Jesus do Mosteiro de S. Domingos, por pertencer à Mesa da Câmara desta cidade – f.4 v. – Livor das Vereacções 1559.

A mesma Eleição consta do Livro das Vereacções de 1561 a f.4; não só dos Mordomos para a Confraria de Jesus, mas também para S. Lázaro.

Ultimamente, em Vereacção de 26 de Janeiro de 1617, a f.18 do livro delas, se acha o Assento por que, junto o Senado e Procuradores do Povo, acordaram de tomar mais em particular à sua conta, em nome desta Cidade, a Santa Imagem do Senhor Jesus do Mosteiro de S. Domingos, e que a Confraria do dito Senhor Jesus, tão antiga nesta Cidade, se convertesse em Irmandade de 72 Irmãos, número dos Discípulos de Cristo, e no qual número não entraria homem de Nação, nem algum Confrade de outra Irmandade desta Cidade, excepto da Misericórdia e Nossa Senhora do Rosário;  e que o Juiz da dita Irmandade seria sempre o Vereador mais velho, e outro-sim se fariam Procissões em todos os segundos Domingos de cada mês; e que dos Irmãos escolherá em cada ano o Prior do Convento, com os Juízes que pelo tempo forem, dois Mordomos, um Tesoureiro, e Escrivão, que serão confirmados peça Câmara.

Assentaram mais, que a Confraria de S. Tomás de Aquino andasse dali em diante anexa à dita Irmandade, e mandariam dizer cada semana uma Missa com cera particular, ficando obrigados a fazer ao mesmo Santo, no seu dia, a Festa possível;  e que, feitos os Estatutos e aprovados em Câmara, se pediria deles confirmação a sua Magestade.

In Origem das Procissões da Cidade do Porto, pelo Padre Luís de Sousa Couto, pag.s 81-83, CMP, Porto, 1971

Convento de São Domingos no Porto (6)

«Pedro, pola paciencia de Deos, Bispo do Porto, a todos os moradores deste nosso Bispado, assi Ecclesiasticos, como Seculares, saude, e acrecentamento em bem fazer. Sabereys que nós recolhemos nesta nossa Cidade para morarem nella, aos Frades Prégadores, com consintimento e gosto dos Conegos, e de todos os Cidadaons, tendo por certo que sua companhia há necessaria, e há-de ser de proveito temporal, e espiritual para todos os moradores da cidade e Bispado. Pela qual rezão, visto como os Religiosos não possuem nenhuma cousa de proprio, nem podem compor sua Igreja, e fabricar as casas, de que tem necessidade, sem vossa e minha ajuda, rogamos-vos a todos, e em remissão de nossos peccados, vos encarregamos, que mostreis com elles facilidade, e devoção, assi em os ajudar a cortar, e ajuntar a madeyra, como no carreto da pedra necessaria para a obra, conforme aquillo: Pera si edifica, quem a Deos faz casa. E por tanto confiando nós plenissimamente na misericordia de deos a todos aquelles que fielmente lhes acudirem no colher da madeyra, e carregar da pedra: ou lhes derem por si, ou por outrem, hum dia de trabalho na obra, concedemos quarenta dias de perdão das penitencias que lhe forem impostas. Dada no Porto a 6 de Março da era de 1276 (1238 de Cristo)Valha por tempo de dois annos

in História de S. Domingos, por Fr. Luís de Sousa

Incendio

Porto, 1 de Dezembro

No dia 28 do passado exhalaram os rebeldes a sua indignação pela vergonhosa sopreza que em seu campo fizeram as nossas tropas; e procuraram vingar a injuria recebida á força de bombas e ballas, disparadas contra a cidade. O convento de S. Domingos foi incendiado por uma das bombas; e é de notar que uma grande parte do dia e da noite, em quanto os rebeldes viram pelo fumo e clarão das labaredas que o incêndio augmentava, não cessaram as suas baterias de atirar contra o edifício que ardia, a fim de poderem melhor empregar seus tiros na gente que suppunham empregada em apagar as chammas.
Se alguma prova faltasse para demonstrar a ferocidade e a infâmia dos chefes do exercito usurpador, este procedimento seria bastante para convencer o mundo de que é impossivel haver homens mais perversos e mais indignos de que os que servem D. Miguel. Os defensores do throno e do altar lançando bombas em conventos e templos, e procurando matar a gente que acode a apagar o fogo ateado nelles! Salvou-se a Igreja, e a parte do edifício contíguo a ella. Acudiu a companhia dos fogos, que sem medo algum dos tiros se portou com admirável actividade, fazendo todos os indivíduos que compõem vivas diligencias por atalhar o progresso do incêndio. Esta companhia, ainda que menos numerosa do que aprece ser necessário nas circunstancias actuaes, supprio a falta de gente pela diligencias , e zelo com que se houve. Consta-nos que o Juiz de Fora appareceu a tempo, assim como o Coronel commandante do deposito militar e outras pessoas, movidas pelo desejo de concorrer para tão louvável fim, como o de salvar um bello edifício e um templo magnifico da voracidade dos chammas.
O grande numero de bombas, algumas das quaes caíram no próprio logar aonde o fogo ardia, não fez desviar por um instante os homens que trabalhavam, nem os que presidiam aos trabalhos: pode dizer-se com verdade que ninguém reparava em seu próprio perigo, dando unicamente attenção ao perigo commum, o da perda do edifício.
A bomba que fez levantar este incêndio caiu em um armazém de linho. E como a casa estava fechada, e nem o dono da fazenda, nem alguma pessoa interessada appareceo a tempo, houveo-o de pegar o fogo: não succederia assim acudindo-se com as providencias necessárias, como se tem feito em outras partes, em que se hão tornado inúteis os esforços dos rebeldes para incendiar a cidade. Esperamos que haja toda a vigilância necessária para atalhar similhantes males.
Hontem renovaram os rebeldes o bombardeamento que durou activo desde as 8 e meia da manhã até ás cinco da tarde. Lançaram na cidade grandíssimo número de projecteis, mas não nos consta que estes fizessem damno extraordinário: nem sabemos de mortes por elles causadas, á excepção de um pobre Gallego, creado do convento de S. Domingos!
O povo do Porto está inteiramente familirisado com estes horrores. Em quanto da outra banda do rio trovejavam as baterias dos inimigos, ia gente pelas ruas cantando o hynno constitucional; e de quando em quando praguejava contra o rebeldes que tão deshumanos como poltrões, só sabem guerrear os seus adversários incendiando os templos, e as casas dos habitantes inermes. Esta é a sublime strategia dos Sampayos, Barbacenas, e Champbells. Essa gente é uma companhia de assassinos: os verdadeiros militares são humanos, são generosos, e horrorisam-se á simples ideia de uma destruição inútil de que são victimas aquelles; que nem tomam armas, nem podem acautellar-se dos estragos desta guerra traidora e deshumana, – a guerra que tão indignos e fracos inimigos estão fazendo.
Fartem-se, que breve chegará o tempo da justíssima vingança. Não são os soldados os criminosos de tantos horrores. Os chefes, os monstros, e os demais traidores, que rodeam o usurpador, são os que hãode pagar os damnos feitos em propriedades e em vidas que se tem perdido no Porto.

In «Chronica Constitucional do Porto», de 1 de Dezembro de 1832

N.B. em o Nº 120 da Chonica demos uma breve relação do incêndio ateado no convento de S. Domingos desta cidade por uma bomba que nelles caiu em o dia 28 do mez passado. Referimos o acontecimento não particularisando circunstancias; e fallamos de pessoas que acudiram com socorros e providencias sem nomear individualmente mãos do que uma authoridade civil e outra militar. Não se creia que assim o fizemos de propósito. Hoje sabemos que os Snrs. Tenente Coronel Pimentel, que serve de Major da Praça, Coronel Serra, commandante do Corpo de engenheiros, Major Pinto, chefe da policia militar, Major Athyde do Estado-major, Capitão Coito, Tenente Infante de Lacerda, Ajudante Heitor, o commandante da companhia das Bombas e seus officiaes, um sargento e alguns soldados se acharam no logar do incêndio, e activamente trabalharam para salvar o edifício, e valiosa propriedade que nelle se achava, o que me grande parte conseguiram. Esta menção é devida; e se a não fizemos, foi porque nos faltou uma relação exacta do successo; e não porque nos aprouvesse omittir os nomes dos officiaes conhecidos por seu patriotismo, que uns por dever e outros por mero zelo do bem publico, se houveram como cumpria a homens do seu carácter. O nosso desejo é fazer justiça á verdade: será injusto quem do contrario nos tachar.

In «Chronica Constitucional do Porto», de 10 de Dezembro de 1832

Diário da Comissão Administrativa dos conventos extintos ou abandonados – 5

10 de Outubro de 1832 – Recebeu-se Portaria de S.M. Imperial de 9 do corrente onde se informavam os requerimentos de Fr. Pedro Salvador Fernandes da Ordem dos Pregadores e o requerimento dos seguintes cónegos regulares
Pedro da Anunciação
José da Purificação
José do Coração de Maria
Caetano da Piedade

Diário da Comissão Administrativa dos conventos extintos ou abandonados – 4

6 de Outubro de 1832 – A Comissão em Diligência, ao Convento de S. Domingos para tomar conta do convento na forma da Portaria de S. M. Imperial de 5 do corrente.

Aviso na Gazeta*: Que á Comissão pertence o convento de S. Domingos com todos os seus pertences e propriedades, e que as pessoas que com ele tiverem contas, se entendam com a Comissão.

(*tratava-se da «Gazeta Constitucional do Porto», jornal oficial do governo de D. Pedro)

Diário da Comissão Administrativa dos conventos extintos ou abandonados – 3

6 de Outubro de 1932 – Recebeu-se Portaria de S.M. Imperial de 5 do corrente para que a Comissão tome conta do Convento de S. Domingos e chame a si a execuções que existam contra o sitado convento.