A Ordem Terceira, segundo Fr. Luís de Sousa

De algumas mulheres de boa, e santa vida, que por este tempo tiverão nome no habito, e profissão da terceira regra de S. Domingos

Em outra parte deixamos feita larga menção de huma irmandade, que nosso Padre s. Domingos instituio de gente secular com leis, e fim principal, para ajudar a defender também com armas materiaes o património da Igreja contra os herejes. E por isso lhe poz nome de milícia de Jesu Christo, e démos conta, como sendo honrada pelos Summos Pontificies com isenções, e privilégios;  e abraçada com fervor pela nobreza, e povo, enfim foi cessando ao passo que as heresias, que em muitos membros andavão levantadas, forão vencidas, e desarreigadas de todo. E então de Milicia de homens, se veio a converter em Ordem de molheres. E também tomou nome novo, que foi de terceira regra, ou da penitencia de S. Domingos, e com elle foi dando ao mundo muitos, e mui insignes espíritos, que a fizerão estimar, e dilatar por todas as províncias da Christandade, e seguir de muita gente de qualidade; principalmente em terras grandes, e onde havia Conventos da Ordem.  Deu-lhes regra o Reverendissimo Geral Mussio Espanhol, que foi aprovada pelos Pontifices Innocencio  VII, e Eugenio IV, e seus successores a honrarão com novas graças, e liberdades; e foi a maior, que possão gozar de todos os privilégios concedidos à Ordem, inda que vivão em casas particulares, ou morem com seus pais, e parentes.

Nos princípios não se admitião a esta Ordem mais que molheres viúvas. A primeira, que sendo donzella, a professou, foi a Serafica Catharina de Sena, com tão boa estrea, que o seu exemplo fez florescer n’ella outras muitas por toda a Christandade, assim donzellas como de outros estados, que nas historias de S. Domingos são celebradas, com titulo de santas e milagrosas, como forão Angela de San-Severino, Anna de Camerino, Daniella de Benevento, Margarita de Castello, Joanna de Civita Vechia, Elena de Pisa, Maria de Venecia, Margarida de Saboya, Marqueza de Monserrat, e irmãa de hum Duque de Saboya, Sybilina de Pavia, e outras muitas, que deixamos, por não serem de nossa obrigação. Das que nos tocão, temos dito alguma cousa em seus lugares. Agora he tempo de dizermos de outras, para acabarmos de nos desobrigar de huma promessa, que em outra parte fizemos. Já vimos que em Evora, e Elvas crescerão tanto em numero, que vierão a juntar-se em Communidade, e de Terceiras professarão a Observancia, dando principio a dous illustres Mosteiros. O mesmo veremos adiante succeder ao Recolhimento de Santa Martha de Evora, que de casa de Terceiras, he hoje o religiosissimo Mosteiro de Santa Catharina de Sena. Só em Lisboa, sendo maior o numero de molheres, que professão a ordem de Terceiras, como em terra tanto maior, nunca chegarão a compor Communidade durável; inda que algumas vezes se intentou. Como sempre erão varias em qualidades, estado, fazenda, morada, e obrigações, communicavão pouco entre si;  e não se juntavão mais, que na Igreja a ouvir sua Missas, e receber os Sacramentos com silencio, e modéstia. E esta devia ser a causa, porque não foi adiante hum Recolhimento, que segundo achámos em huma memoria authentica, foi principiado em Lisboa, fora da Porta da Cruz, pelos annos de 1520. Assim ficarão no cosatume, que hoje tem, que he juntarem-se na capella de S. Pedro Martyr; onde seu trato he só com Deos, e com seu Padre espiritual, que a Religião lhes nomea, homem de idade crescida e virtude provada. D’aqui torna cada huma para sua casa particular.

Nos tempos antigos, segundo verdadeiras tradições que temos, houve gente de muita sustancia n’este género de vida na cidade de Lisboa. Perdeo-se a memoria de seus espíritos; porque, nem então havia curiosidade para serem notados, nem os que a podião ter, fazião caso d’elles. Que se vemos em nossos passados, que erão curtos em escrever as virtudes heróicas dos varões eminentes, como nos temos queixado muitas vezes, quem os havia de obrigar a fazer livros de molheres, cuja maior estima, segundo a opinião de hum sábio, he não sair sua fama, nem ser conhecido seu nome fora dos cantos, e limites de sua casa? Contudo, não se pode negar, que he grande prova de haver entre as antigas muitas de grandes, e subidos merecimentos, alem da tradição que dura, o que sabemos de algumas, que nossos pais virão, e tratarão; cuja vida, e procedimento foi tão cheio de bênções do Ceo, que nos obrigão a fazer a historia d’ellas;

in História de S. Domingos, Terceira Parte, Cap. XVIII, Vol. II pag. 145-147, Ed. Lello & Irmão Lda, 1977, Porto

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