D. Domingos Frutuoso e a Ordem Dominicana – 3

Segundo privilégio dos religiosos nomeados Bispos, D. Domingos pediu ao Mestre Geral, Rev.mo P. Luís Theissling para fámulo e companheiro um Irmão leigo escolhendo o Irmão josé Maria Faria.

Não podia escolher melhor. O Irmão José Maria, além de ser óptimo religioso era um homem em quem D. Domingos podia ter confiança. Muito sentiu D. Domingos a sua morte em 1936.

Depois deste Irmão, D. Domingos teve durante alguns anos o Irmão Martinho Coelho que presentemente está com os Padres do Corpo Santo de Lisboa. Mas o maior serviço que a Província lhe deve depois de ele ter sido nomeado Bispo foi a sua intervenção junto do Rev.mo P. Luís Theissling, Mestre Geral da Ordem que decidira em 1923 dispersar os Padres e estudantes portugueses filiando-os noutras Províncias por achar que a restauração desta era muito vagarosa ou impossível e ser difícil para os poucos Padres viver a vida dominicana na sua perfeição.

Foi um choque tremendo para o Sr. D. Domingos, que imediatamente escreveu ao Rev.mo uma longa carta mostrando a dor profunda que a notícia lhe causara e expondo vigorosamente os inconvenientes de tal medida.

Para influir no espírito do Rev.mo P. Theissling e unicamente com esse fim, não omitiu que o Cardeal Locatelli dissera mais de uma vez a pessoa de confiança que se pensava em D. Domingos para Patriarca de Lisboa.

A carta surtiu efeito. O Re. P. Theissling reuniu de novo o Conselho Generalício e revogou a ordem de dispersão.

Sempre que se lembrava deste episódio doloroso D. Domingos estremecia. Nunca deixou de se interessar pela restauração da Ordem em Portugal.

Desejava receber notícias sobre o seu andamento e quando tardavam queixava-se repetindo as palavras do Salmista: «Sou um estranho para os meus irmãos e um peregrino para os filhos da minha mãe». «Bem sabem, escrevia ele a um religioso, se estou interessado em saber o que se resolve. Foi meu sonho dourado, mas como Nosso Senhor «nullis eget» (não precisa de ninguém, atiraram-me para aqui. Que não me faltem as suas orações e dos nosos dessa Casa (6-3-38). Peço sempre pela nossa Província e só Nosso Senhor sabe quanto me custou o tempo que passei no Egipto (fora do Convento). Nossa Senhora de Fátima nos abençoará (25-5-32). No que eu puder aconselhar contem comigo (12-12-37).

Não é fácil imaginar a soma de sacrifícios que exige a fidelidade. A monotonia da vida, as dificuldades constantes dos homens e dos acontecimentos e o pouco resultado aparente dos esforços e do trabalho exigem um alto espírito de sacrifício. Durante 24 anos D. Domingos trabalhou em condições muito difíceis. Mas soube esperar e…sofrer.

Que nos permitam esta indiscreta citação reservada para a família: «Gostarão de saber que pela nossa Província passei fome para me manter…(22-5-45).

Isto diz muito. E no entanto segundo ele afirmava, sofreu mais, muito mais , da parte dos homens.

D. Domingos morreu antes de ver plenamente restaurada a Província que ele tanto amara «como Jacob à sua linda Raquel» – são palavras suas.

«Desde 1897 a 1921, escrevia ele, fiz um bom noviciado. Permito-me dizer como o Apóstolo «combati o bom combate»; e ainda com o mesmo «Deus sabe que não minto». e também tenho presente o que Nosso Senhor em S. Lucas (XVII, 10) «somos servos inúteis, fizemos o que deíamos fazer». Não tenho nada de que me gloriar, porque só fiz o que devia: quod debuiu facere, feci. Tudo isto é verdade. O Nosso Santo Pai suprirá com a sua sua intercessão diante de Deus » (1-9-42).

S. Domingos terá intercedido pelo seu ilustre filho e terá suprido as suas deficiências sempre possíveis na fragilidade do homem, junto de Deus, que recompensa não segundo o resultado das nossas obras, mas seguindo a nossa boa vontade e os nossos esforços.

Temos a firme esperança que Deus já recompensou o grande dominicano, grande religioso e grande Bispo.

A Província Portuguesa restaurada não poderá esquecer o seu primeiro religioso que abriu os alicerces e serve de pedra angular no grande edifício que ela pretende erguer para glória de Deus e bem das almas.

in «O Facho», nº30, Outubro de 1949

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