Breve notícia da origem e instituição da Nossa Ordem Terceira nesta cidade do Porto feita pelo muito Rdº P.e M.e Director Fr. Simão do Sacramento

Breve notícia da origem e instituição da Nossa Ordem Terceira nesta cidade do Porto feita pelo muito Rdº P.e M.e Director Fr. Simão do Sacramento.

«Lembrando-me eu das repetidas queixas que o o Padre Fr. Luís de Souza, cronista desta nossa Província de Portugal, lamenta o descuido que tiveram os nossos padres antigos, em apontar as coisas dignas de memória, determinei (para satisfação dos vindouros) de colher as notícias da origem que a Ordem Terceira nesta cidade tivera, e por isso falando com os mesmos principiadores e aclamadores dela, tomei deles repetidas e verdadeiras informações de que formei a relação seguinte.

Entre o Arquitecto Divino e os Arquitectos humanos houve sempre uma grande diferença, porque para levantarem edifícios sumptuosos necessitam de armar mui grandes fundamentos, porém aquele, em pequenos alicerces, funda muitas vezes edifícios mui altos. Quis a misericórdia Divina ressuscitar nesta Cidade aquela Ordem Terceira que nosso Patriarca instituíra contra os hereges Albigenses, aos quais destruiu à força de armas, com a divina ordem (como das nossas crónicas consta) e suposto, por incúria da religião, estava já tão extinta na memória dos fiéis de Portugal, esta ordem que pareceu coisa ridícula a falar-se dela; contudo quis o Senhor ressuscitá-la atropelando quantas dificuldades se ofereceram; e vejam os meios que tomou para isso.

Corriam os anos de 1671 e era Provincial desta Província o M.R.P M.e fr. Valério de S. Raimundo. Que depois foi inquisidor da mesa do Santo Ofício e de presente é ainda bispo de Elvas. Quando nas antevésperas  de Nª Srª da Assumpção achando-se nesta Igreja de S. Domingos do Porto o Reverendo Padre e Doutor Manuel de Sousa Gallo natural desta Cidade e singular devoto da religião com alguns amigos, e falando entre si na ordem terceira de Nosso Pai São Francisco e nos aumentos que tinha nesta cidade, disse o sobre dito padre, que também São Domingos instituíra uma terceira ordem que nos seus tempos fora muito celebrada, mas que de presente se não falava nela, ficarão os circunstantes admirados com a novidade e logo disse um de pronome Domingos frz. de Oliveira, que se assim era, fora ele Terceiro de São Domingos com muito boa vontade; também eu o serei, respondeu o Padre Manuel de Souza. Porque sou devotíssimo desta ordem, mas para que não falemos no ar eu me informarei da verdade, e avisarei a Vossa Mercê.: se podemos ou não ser terceiros desta ordem. Dizendo isto entrou pelo Convento [onde] foi buscar o Prelado dele que era então o Pregador Geral fr. António Moutinho, o qual lhe disse, que conforme a sua patente de prelado bem podia dar o hábito a terceiros, mas que para o fazer com mais segurança avisaria ao prelado da Província como efeito fez.; porém teve dele por resposta que cedo viria a este convento a visitá-lo e que pessoalmente falaria com os devotos que queriam ser terceiros.

Entanto andava o Padre Manuel de Souza fervorosamente publicando a ordem terceira de São Domingos, e persuadindo a alguns amigos, assim clérigos como Seculares; que quisessem entrar nesta ordem em que havia muitas graças e indulgências; dava já tudo por feito este Padre regulando-se pelo seu devoto zelo, sem prevenir as contradições(1) que depois sobrevieram; passando-se alguns meses até mais do ano seguinte em que chegou o Provincial deste convento para visitá-lo como prometera, acudiu logo ao convento o Padre Manuel de Sousa buscou hora vaga para falar-lhe; e apenas o prelado entendeu quem ele era e o que pretendia antecipou-se com boas palavras a despersuadir-lhe o que pretendia alegando-lhe dificuldades que havia para que uma novidade tão grande efectuasse; porém o Padre Manuel de Souza, depois de ouvir com modéstia o que o prelado dizia, foi facilitando todas as dificuldades com tão boas razões que o prelado se reduziu ao seu parecer, e lhe prometeu que quando voltasse para Lisboa proporia o seu negócio no conselho da província e do que resultasse lhe faria aviso logo, e com isso despediu ao Zeloso pretendente.

Continuou o prelado na visita dos conventos e voltando para Lisboa não faltou o Padre Manuel de Souza em escrever-lhe, lembrando-lhe a promessa e pedindo-lhe a satisfação dela; não pode faltar o Provincial e chamando os padres do concelho lhes propôs o negócio pedindo-lhe seu pareceres na matéria. A todos pareceu novidade o requerimento do selo portuense e a muitos pareceu pouco considerado, com que depois de vários debates vieram a concluir que se não desse a licença que se pedia. Parecia nesse tempo a quem o concederia coisa muito dificultosa o pôr-se em praxe a ordem terceira por não se acharem bastantes clarezas para isso. Sabia-se que ainda hoje perseverava a ordem terceira nas mulheres que fazendo voto simples de castidade trazem hábito patente e observam a regra que está no fim das constituições da Ordem, mas não se podia entender como houvesse de ampliar-se a ordem terceira a todos os fiéis homens e mulheres, grandes e pequenos, solteiros e casados como queriam os pretendentes. Coincidiram os mais noticiosos que suposto nosso Pai instituíra esta ordem com o título de Milícia de Jesus Cristo contra os hereges albigenses, contudo, que quando acabaram aquelas guerras acabara também esta Ordem, por cessar o fim para que fora instituída, e quando muito os que mais notícias tinham da religião saibam que depois de falecer nosso Padre alguns Sumos Pontífices aprovaram esta ordem terceira com o título de ordem da penitência e aprovaram a regra que nosso Padre lhes deixara, senão escrita em papel com a pena, ao menos esculpida nos corações com a doutrina, mas não se sabia que esta ordem florescesse em parte alguma nem como houvesse e introduzir-se e governar-se. Além de que advertia-se e presumia-se que não lograria muita permanência em Caso que o Prelado consentisse por não haver entre os pretendentes pessoas de posição que pudessem sustentá-la com todas estas razões, se persuadiram aqueles Padres que não convinha dar-se Licença para aclamar-se de novo a terceira ordem e só devia o prelado responder com boas palavras dilatando o despacho até que a pretensão cessa-se. Assim o fez ele, e respondeu ao Padre Manuel de Souza que sem ordem do Padre Geral se não atrevia a conceder-lhe a Licença que pedia; assim que se sossega-se enquanto ele escrevia a Roma e que da resposta o avisaria.

Calou o Padre Manuel de Souza esta resposta consigo para não desanimar os mais companheiros, aos quais afervorava quanto podia, não cessando todos de fazer diligências por descobrir notícias da ordem terceira até que Deus foi servido que um religioso lhes mostrasse o bulário da nossa religião, no qual acharam a regra e constituições da terceira ordem confirmada por breves apostólicos com que ficaram muito consulados e com as graças, e indulgências, que os sumos Pontífices concedem aos nossos terceiros pelos grandes serviços que fizeram a Igreja católica com suas armas.

Não acabava porém de vir de Roma a resolução do negócio porque creio se não tinha pedido, e entretanto acabou o Padre M. fr. Valério o seu Provincialado. Seguiu-se a ele o Padre Mel. fr. George de Castro, deputado do Santo Ofício que foi para os Zelosos pretendentes alegre aurora dos seus alívios e liberal consolador dos seus desejos, se bem que não presumisse o Padre Manuel de Souza porque não tinha com ele o menos conhecimento mas como Deus queria favorecer o seu Zelo, dispôs que viesse a esta cidade um castelhano com uma boa partida de livros que vendeu a um Livreiro entre os quais vinha um pequeno volume composto pelo Doutor Gabriel Verdu que trata claramente da terceira ordem, da sua instituição, confirmação, conservação, o qual sendo composto na era de 1674 e espalhando-se pelos Reinos de Espanha , chegou às Índias de Castela aonde foi ocasião de se ressuscitar e erigir a terceira ordem em que se alistaram os mais ilustres como me afirmou o Padre Presentado, fr. Luís de Naboa religioso daquela Província, passando por este convento na era de 1684; em que veio à Galiza de onde era oriundo, a certos negócios de Sus parentes, e estou certo que me disse este religioso, que haveria nove ou dez anos que aparecera na Índia este livro com o qual se instituíra a nossa terceira ordem com grande edificação do povo e aproveitamento das almas, de onde infiro que apenas saiu à Luz o dito Livrinho, chegou logo às Índias e foi ocasião de se aclamar nelas  a terceira ordem assim como foi nesta cidade, porque apenas o Padre Manuel de Souza o acolheu às mãos, escreveu ao novo Provincial fazendo-lhe o seu requerimento e facilitando-lhe o despacho com o livro que lhe propunha. Patrocinou esta súplica o Padre Mel. Fr Bento de São Tomás, que deixando o seu priorado deste convento foi para o de Lisboa e foi o portador da Carta. Era o prelado de Sua natureza, benévolo e fácil em conceder o que se lhe pedia com razão. E vendo o porfiado e constante zelo do Padre Manuel de Souza e dos seus companheiros lhes mandou passar uma patente aos 18 de Setembro de 1675 na qual dava Licença ao M.R. Padre fr. João de Tovar, prior eleito deste convento para lançar o hábito da ordem terceira aos devotos que quisessem recebê-lo; com esta última resolução ficaram os pretendentes mui satisfeitos mas havendo de receber o hábito começaram a duvidar como o fariam e a razão de dúvida era porque a regra dispõem que os Irmãos terceiros à imitação dos religiosos vistam túnica branca, e a capa preta, e a todos se fazia dificultoso o uso deste novo traje. Contudo se resolveram a fazer uns pequenos escapulários a que chamam bentinhos para trazerem continuamente debaixo dos vestidos e que só nas festas da ordem usassem os hábitos patentes os que tivessem devoção de fazê-los em vida para nela serem sepultados em morte com este arbítrio que a todos pareceu racional tomarão o hábito 15 pessoas em Louvor dos 15 mistérios do Rosário aos 13 de Fevereiro de 1676 como consta do livro de recepções do que mandou fazer um termo o Padre Prior fr. João de Tovar, que lhes lançou o hábito como se vê no mesmo Livro.

Contentou-se o dito Padre Prior com dar Princípio a esta obra e parecendo-lhe que convinha deputar um religioso para director dos irmãos terceiros lançou os olhos pelo convento e entre os seus súbditos devisou a um que por ancião e autorizado lhe pareceu conveniente para cultivar a nova planta que muito necessitava de um agricultor industrioso e prudente, era este o Padre Pregador Geral fr. Manuel do Rosário a quem o prelado logo nomeou por Director, e para melhor estabelecer a sua nomeação escreveu ao Padre Provincial pedindo-lhe que mandasse a patente para o ofício em que o tinha nomeado, como em efeito mandou no princípio de Abril do mesmo ano de 1676.

Aceitou este Padre a patente e ofício com grande alegria dos Irmãos terceiros e pondo os ombros à obra, começou a lançar o hábito a muitos, que o pediam, tirando-lhes próprio inquirições exactas do Sangue e costumes. Como dispõe a regra, mas advertindo que o número dos irmãos ia crescendo, e que estava o Corpo da ordem como embrião tosco, sem prior e oficiais, que são os pés e mãos com que este corpo se manea, e governa chamou os Irmãos principais e disse-lhes que suposto não tinham acabado o ano de noviciado, contudo que lhe parecia conveniente admitir à profissão a todos aqueles que necessários fossem para servirem os cargos da Ordem e mesa, como dispõe a regra, pois não podiam servir esses cargos sem serem professos, que para esse efeito escreveria ao Padre Provincial pedindo-lhe Licença para professar antes de tempo, aos Irmãos que necessários fossem, alegando-lhe a sobre dita razão que para isso havia agradou a todos este parecer do zeloso Padre mas logo lhe advertiram que era necessário (havendo de fazer-se eleição9 eleger mais oficiais do que dispõe a regra porque assim era necessário para bom Governo a ordem; aprovou o Padre director esta resolução e prometeu-lhe que assim se faria a seu tempo, e entretanto alcançou Licença do Padre Provincial para fazer as profissões antes de tempo e a 14 de Junho do mesmo ano professou os primeiros Irmãos e a 25 de Junho do mesmo ano professou outros. Depois dos quais professos no mesmo dia (estando juntos todos os Irmãos que havia na nossa Igreja) elegeu o Padre director os professos Irmãos à mesa como consta do Livro das eleições, e desta eleição se pediu ao Padre Provincial confirmação expressa rogando-lhe que lhes concedesse o fazê-la sempre com os mesmos oficiais ainda que a regra não apontava tantos o que tudo lhes foi depois concedido em definitório a nove de Fevereiro de 76.

Nesta Primeira eleição que fez o Padre Director pareceu se resignaram os Irmãos, se experimentou que seria para o inconveniente grande o juntar-se toda a ordem para votarem todos, nos Irmãos da mesa, como a regra insinua e assim se resolveram todos pedir ao Padre Provincial para que os Irmãos da mesa tivessem voto na tal eleição, e que esta se fizesse todos os anos logo depois das oitavas da Páscoa: nenhum inconveniente havia nestas petições e assim foram despachadas facilmente no mesmo sobredito definitório.

Feita pois esta primeira eleição, com que a ordem ficou já formada concorreram mais devotos a pedir o hábito, e a todos admitia o Padre director com grande afabilidade, depois de tirar suas inquirições das pessoas e assim foi admitindo aqueles que vieram até o mês de Setembro do mesmo ano de 1776, em que Deus foi servido levá-lo acompanhado das Saudades e lágrimas dos Irmãos, que com a sua vida se prometiam muitos aumentos na ordem ficou ela qual planta esmorecida com a falta do seu agricultor cuidadoso, mas o céu que não se descuidava dela, lhe acudiu logo com ouro não menos prendado que foi o Padre fr. Tomás Prª que de próximo entrara no convento por prelado ele, o qual tomou à sua conta o assistir-lhes enquanto o Padre Provincial não provia de Director conveniente o que fez dali a dois meses porque em Dezembro lhes mandou por director ao Padre r. Luís da Anunciação que em Viana estava religioso de muita autoridade e de conhecida virtude, que depois faleceu neste convento com tanta opinião que os seculares e religiosos lhe despedaçaram o hábito levando os retalhos como relíquias, e o sepultaram quase despido aos 6 de Janeiro d 1687; este religioso como estava já muito entrado na idade e muito quebrado de penitências ainda que tinha o espírito faltavam-lhe as forças necessárias para exercitar o cargo como convinha e por isso exercitou menos de um ano, e no Outubro seguinte de 1677 o largou. Tornou segunda vez o Padre Prior fr. Tomás Prª a exercitar o ofício de director fazendo as práticas e lançando o hábito a muitos.

Via-se já neste tempo a ordem com bastante número de Irmãos e tratavam os da mesa de entender na perfeição e bom Governo dela, e a primeira resolução e assento que fizeram foi de que nesta ordem houvesse sufrágios pelos Irmãos defuntos para isto convocaram toda a ordem propuseram este intento, o qual todos aprovaram mas porque não havia rendas com que se fizessem estes dispêndios assentaram que cada Irmão pagasse meio tostão de anual se quisesse ter dez missas pela sua alma depois da morte, e que, se não pagasse o dito anual, não teria as dez missas. Tomou-se esta resolução em Março de 1678; foi esta resolução caminho aberto para outra, que tomaram em Julho do mesmo ano em que assentaram que à custa dos mesmos anuais se fizesse um ofício solene com missa e pregação pelos Irmãos defuntos depois do oitaviário dos santos e que a missa, que o Director  dizia nos quartos Domingos para dar comunhão aos Irmãos fosse também dita por intenção da ordem, a qual pouco e pouco se ia aperfeiçoando com estas resoluções zelosas. Em Maio desse ano se fez a segunda eleição perante o Padre Prior fr. Thomas Prª e se assentou que para sempre se fizesse a eleição no mesmo tempo, e na forma que atrás fica dita.

Tratavam neste tempo os Irmãos mais inteligentes e zelosos de fazerem os seus estatutos para melhor Governo da ordem e para isso se ajuntavam neste convento repetidas vezes conferindo entre Si as coisas que eram mais convenientes e neste trabalho continuavam até que ausentando-se o Padre Prior do convento em Dezembro de 1678 e ficando eles sem Director cerca de quase um ano: veio o Padre fr. João de Barros para este convento com patente de Leitor dele, e para Director dos terceiros na qual oficialmente entrou em Outubro e 1679.

Com a assistência deste Padre continuaram os Irmãos mais fervorosamente na fábrica de seus estatutos, mas não puderam conclui-los senão a 8 de Novembro de 1680; então os mandaram a capítulo em que foram confirmados na forma que deles consta, conforme eles se foi Governando a ordem aperfeiçoando-se cada vez mais com assistência do seu Director o qual continuou três anos inteiros neste ofício e em Setembro de 82 foi eleito Prior o Convento da serra.

Acudiram logo os Irmãos ao Padre Provincial que era então o Padre Mestre. Fr. Agostinho de São Tomás pedindo-lhe que os provesse de director determinando porque assim convinha ao seu bom Governo, e não tardou o Prelado com o despacho, porque em 27 de Outubro seguinte entrou neste convento o Padre Simão do Sacramento, com patente para Leitor do convento e padre Director dos terceiros. Era este religioso ainda e pouca idade, mas tanto que os Irmãos terceiros conheceram nele zelo para ajudá-los apresentando-lhe o desejo que tinham de aumentar a ordem e que para isso achavam que seria conveniente representar os passos da paixão de nosso redentor no decurso da Quaresma, porque isso mesmo fazia a terceira Ordem de Nosso Padre São Francisco com grande edificação deste povo. Respondeu o Padre Director que não lhe aprecia a resolução acertada, mas que os ajudaria se fizessem os passos e que nela houvesse sermão: mandaram-se fazer a toda a pressa duas imagens que era para isso necessárias a do Senhor ecce homo e a do Senhor Preso, e mandou-se também fazer um teatro com seu cortinado para se armar no meio do cruzeiro e quando chegou a quaresma representaram-se os passos à medida do desejo de todos: acudiu neste tempo muita gente a pedir o hábito do que tinha o Padre Director muita Glória vendo o fruto do trabalho que tivera na disposição dos passos.

Passou-se este ano, e no seguinte tomaram outra empresa, e muito mais dificultosa, porque consideraram alguns zelosos que a ordem terceira de Nossa Padre São Francisco tinha uma capela muito formosa unida ao convento, na qual se juntavam os Irmãos a ouvir as suas práticas, a frequentar os sacramentos, a fazer suas orações e tomar suas disciplinas; entraram em desejos e fazer uma semelhante capela porque até então tinham à sua conta a capela do Espírito Santo da nossa Igreja e nela exercitavam os seus espirituais exercícios  com algum detrimento dos religiosos, e para aliviá-los, aprecia conveniente fazerem nova Capela não só para os seus espirituais exercícios mas para jazigo dos Irmãos que naquela quisessem sepultar-se. Grande desígnio pareceu este a todos. Mas a todos parecia impossível, assim por não aparecer lugar acomodado, como por não haver cabedais para ela. Falou-se em mesa repetidas vezes neste negócio e suposto muitos eram de parecer que se principiasse a obra, e que Deus os ajudaria, contudo o Padre Director, pesando bem as dificuldades que havia receava lançar os alicerces a um edifício que depois se não acabasse, e servisse mais opróbrio que de crédito. Comunicou este negócio a pessoas inteligentes, e entre elas achou uma que alegando-lhe o exemplo semelhante o animou para que empreendesse a obra com boas esperanças em Deus, de acaba-la; assim o fez, tratou logo com os Irmãos da mesa de escolher o sítio e escolheram (depois de várias opiniões o sítio em que hoje está a capela; pediram Licença ao senado da Câmara e à comunidade, a esta porque era seu o pavimento do adro, e àquele porque eram seus os tectos e telhados de todo o adro. Deram os senadores a sua Licença gratuita e os religiosos deram a sua com condição que a ordem terceira lhes pagasse de pensão 2500 cada ano como consta do livro dos assentos da terceira ordem, folha 53; isto feito convocou toda a ordem pedindo a cada um esmola para a obra; os Irmãos da mesa não faltaram com suas promessas grandiosas, mas como não se ajuntava logo o que se prometia, ofereceu o Revº Padre Francisco da Silva que era vigário do culto divino que logo daria 100$oo para se principiar a obra; chamaram-se oficiais pedreiros, mostrou-se-lhes o rascunho da obra que tinha feito o Revº. Padre Pantaleão da Rocha, arquitecto e mestre do coro da Sé, tomou o Padre Director por sua conta arrecadar as esmolas e fazer os pagamentos aos oficiais e o Padre Francisco da Silva tomou por sua conta assistir-lhe em pessoa. Lançou-se a primeira pedra em 18 de Dezembro de 1683 e foi continuando a obra com todo o cuidado, porém advertindo-se que as esmolas não eram suficientes para se acabar a capela com a brevidade pretendida, assentaram os Irmãos da mesa, pedir ao Padre Director quisesse chegar a Lisboa a pedir a sua Majestade uma esmola do cofre desta Cidade, pois estava determinado o direito dele para as obras dela; não se negou ao trabalho o Padre Director e pôs-se a caminho em Maio de 1684 deixando a cargo do Padre Francisco da Silva a obra da capela. Chegou o Padre Director a Lisboa e por mais que trabalhou na sua pretensão até ao fim de Setembro, não pode conseguir bom despacho, com que se retirou para o convento, e achou a capela em grande altura, porque o Padre Francisco da Silva tinha emprestado à ordem outros 100$00 com que acabou de cobrir a capela por não ficar descoberta ao inverno que estava já entrado e assim ficou a obra acabada dentro de um ano de sorte que aos 7 de Janeiro se disse a primeira missa nela com sermão e toda a solenidade, dedicou-se a capela à Gloriosa Stª Catarina de Sena por ser a mestra da terceira ordem.

Feita a capela se vai tratando do ornato dela interior; no fim do ano de 1687 se fizeram os dois retábulos juntos à capela maior; no ano de 89 os outros dois; no ano de 90 o púlpito e todos os demais progressos e operações da ordem nos seguintes anos se podem ver no Livro das terminações e assentos da ordem porque como se ajustou nas obras coisa de consideração sem primeiro ser determinada em mesa e escrita a determinação em livro para isso deputado, nela se achará tudo com distinção e clareza.

in Fr. Simão do Sacramento OP, in A.OT (Arquivo da Ordem da Trindade) – Estatutos da Ordem 3ª, 1680, fls 22-26, transcrito por B. Xavier Countinho, «História documental da Ordem da Trindade», Vol. I, edição da Celestial Ordem da SS. da Trindade, 1972, Porto

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