CONVENTO DE S. DOMINGOS: O RESTAURO DA MEMÓRIA

Um dos edifícios mais marcantes e pleno de história da cidade está a ser, finalmente, objecto de recuperação. Desde 2001 propriedade da Fundação da Juventude, o chamado Edifício Douro, no Largo de S. Domingos, albergará em breve um espaço destinado ao apoio a jovens artistas e outras valências, o anunciado Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, projecto visando a criação de um pólo de desenvolvimento cultural, social e económico na Baixa portuense.

O edifício em causa é a única parte que resta do Convento de São Domingos, que tinha a invocação de Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus, o mais antigo da cidade do Porto. Criada a Ordem dos Pregadores em 1216, logo no ano seguinte, Fr. Sueiro Gomes, um dos primeiros companheiros do fundador da ordem (S. Domingos de Gusmão), regressa a Portugal. Instalando-se inicialmente em Montejunto, no Cadaval (1217) veio a fundar em Santarém o primeiro convento dominicano português (1221, logo seguido do de Coimbra ( 1227).

O bispo do Porto à época, D. Pedro Salvadores, vendo o ardor, a acção e os métodos daquela nova ordem religiosa, enviou ao Capítulo Provincial dos Frades da Ordem dos Pregadores, reunido na cidade de Burgos no ano de 1237, uma solicitação para que se viessem instalar na cidade. O então provincial da Península Ibérica, o famoso S. Frei Gil de Vouzela, recebeu com grande alegria tal pedido, tendo o mesmo sido prontamente aceite. Foram enviados os Frei Gualtero e Domingos Galego para o Porto., tendo o bispo, conforme prometido, cedido uma capela (de Nossa Senhora das Neves) e algumas casas e terrenos no local onde viria a ser construído o futuro convento.

Observando o entusiasmo que a chegada dos novos frades suscitava junto da população, e certamente motivados por ciúmes e medo de perda de influência (e de rendimentos), o Cabido da Sé terá conseguido que o bispo voltasse atrás nas promessas de colaboração iniciais, levando à interrupção abrupta das obras e mesmo à proibição de doações, pregação e celebrações religiosas. Recorrendo os frades às mais altas instâncias contra tão inusitado acto, foi apenas por força da intervenção do próprio Papa Gregório IX, com a sua Bula de 24 de Setembro de 1238, que se mandou levantar o interdito e se retomou a construção do novo convento, prontamente apoiado e financiado pelo povo da cidade.

Também foi neste edifício que, pela primeira vez, existiu ensino universitário no Porto uma vez que, até 1380 os conventos dominicanos em Portugal tinham o exclusivo do ensino de cursos de teologia.

Ao longo da sua vida multisecular, o Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto, ou, abreviadamente, como ficou para a história, Convento de S. Domingos, foi um edifício que sofreu diversas vicissitudes. Em 1357, um violento incêndio destruiu-o por completo, sobrando apenas algumas paredes da igreja conventual. Em 1523, um outro incêndio destruiu os dormitórios dos frades. O terrível Terramoto de Novembro de 1755 também afectou seriamente o convento, arruinando a igreja que necessitou de ser totalmente reconstruída. Mas logo em 1777 terá sofrido novo incêndio destruidor.

A velha igreja do convento era constituída por três naves «sendo a do meio mais elevada, iluminava o interior com o seu clerestório». Divididas em quatro tramos, por arcos ogivais assentes em pilares, «sem bases, subindo lisos até aos capitéis» distanciados uns dos outros de 5,73 m. «O comprimento tomado desde o cruzeiro à fachada principal não ultrapassava os 27,28m, e de largura de parede a parede 16,50m».

No adro defronte da Igreja conventual se mandou levantar um grande alpendre, com arcos e lojas, que servia de local de reunião e de negócio, por serem escassas as praças da cidade. Ali se reuniam as autoridades civis e judiciais da cidade, ouvindo e despachando os assuntos que se lhe levavam. Ao longo dos séculos, o Largo de S. Domingos foi o centro cívico da cidade, zona de ligação entre a parte ribeirinha e a zona alta da Sé. Também em terrenos circunvizinhos dos frades se foram construindo e rasgando novos edifícios e vias, como a rua das Flores, principal via estruturante da cidade durante mais de três séculos e que desagua precisamente no largo fronteiro ao convento ou a rua de Belmonte.

De acordo com o padre Agostinho Rebelo da Costa, em 1788 existiam no convento dominicano do Porto 40 frades. Em 1821, por mandato das Cortes Constituintes realizou-se um inventário geral de todos os conventos do país, conhecendo-se então que apenas ali residiam 14 frades e dois conversos, tendo como prior frei Joaquim José de Santa Gestrudes Escadinha. Com o advento de nova crise social e política onze anos depois, tem-se notícia da existência de apenas sete frades em 1832.

Com a entrada na cidade, a 8 de Julho de 1832, das tropas comandas por D. Pedro, Duque de Bragança e Regente de Portugal, muitos foram os apoiantes de D. Miguel que por medo de represálias e para sua segurança abandonaram a cidade. Entre eles encontrava-se o bispo do Porto, fidalgos e inúmeros clérigos. Consolidada a situação na cidade, logo D. Pedro de Bragança ordenou a eleição de um Vigário Capitular da Diocese, em substituição do bispo foragido e à qual ocorreram 42 clérigos entre religiosos e párocos. Dos autos de tal evento, realizado em 20 de Julho de 1832, se diz ter sido eleito frei Manuel Simões de Santa Inês, dos Religiosos Descalços de Santo Agostinho, sendo de assinalar a presença de sete frades da Ordem dos pregadores. A saber: frei João Baptista Pinto, J. Conerlis O’Dea, frei Francisco Pinto Machado, frei António do Patrocínio Pinheiro, frei Domingos de Mesquita, frei António de Santo Tomás Sousa e frei Bernardino Peixoto.

Todos eles terão votado favoravelmente a pretensão das novas autoridades, sem que se saiba no entanto se de forma espontânea ou se meramente por algum temor. Certo é que aos frades dominicanos tal não terá servido de apaziguamento dos ventos anti-congregacionsitas que se tinham instalado no governo da Regência. Tendo sido criada a Comissão Administrativa dos Bens dos Conventos Extintos ou Abandonados, tinha já esta procedido a algumas reformas e encerramentos compulsivos. Fosse por precisar das instalações em face da guerra que se travava, fosse por natural animosidade, fosse ainda pela insuficiência do número canónico de frades residentes para ser considerado um convento, o certo é que D. Pedro determinou considerar o mesmo como abandonado. Ainda que o não estivesse.

Assim, no dia 30 de Outubro de 1832, os comissários régios fizeram o inventário de tudo quanto havia no convento, «sendo neste acto presentes os padres conventuaes do mesmo convento», que assinaram o respectivo auto de arresto de bens. Curiosamente, exactamente os mesmos referidos anteriormente, com o acrescento da existência de mais «dois conversos».

Pouco depois, ainda mais se reduziu o património existente, fruto dos estragos provocados pelos combates travados com as tropas miguelistas que procediam ao Cerco do Porto. Vindos do Mosteiro da Serra do Pilar, os bombardeamentos do dia 28 de Novembro de 1832 provocaram um incêndio e destruição quase que por completo do pouco que restava do Convento de S. Domingos. Dele ficou de pé pouco mais do que a fachada virada para o largo fronteiro a que desde sempre dera o nome.

Já em 1825 ali se tinha instalado a Caixa Filial do Banco de Lisboa, por contrato de arrendamento estabelecido com os frades. A instituição financeira que anos mais tarde (1846) veio a dar origem ao Banco de Portugal, viria em 1865 a adquirir à Fazenda Pública a totalidade do edifício quando as propriedades pertencentes ao extinto convento foram colocadas em hasta pública.

Por mais de 100 anos toda aquela zona continuou a ser o centro económico da cidade. Ali estava a Alfândega, o cais de desembarque marítimo, as principais casas financeiras, a Bolsa de Valores, as empresas importadoras e exportadoras, a Feitoria Inglesa e a pujante Associação Comercial do Porto.

Apenas em 1934, com a transformação da antiga Praça D. Pedro e consequente abertura da Praça da Liberdade e Avenida dos Aliados, a filial do Banco de Portugal foi transferida para o novo centro da cidade. Foi então o edifício do antigo convento ocupado pela Companhia de Seguros Douro, fundada em 1833, empresa que veio a ser nacionalizada em 1975, dando origem em 1979 à Aliança Seguradora e esta posteriormente vendida à actual Axa Seguros. O edifício foi encerrado definitivamente em 1989 e adquirido pela Fundação da Juventude em 2001, que agora está a restaurar e – espera-se –, a preservar um pedaço tão significativo da memória da cidade.

Gabriel Silva

Texto originalmente publicado na revista «O Tripeiro», 7ª série, ano XXVII, nº 8, Agosto de 2008;

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