R. P. Bernardo Lopes

in «O Facho», Abril de 1948, nº11

Em 29 de Novembro p.p. morria em Guimarães o bom Padre Lopes. Embora estivesse afastado da actividade e de nós, havia já algum tempo, sentimos a sua ausência definitiva deste irmãos mais velho.

Era entre nós o religioso mais antigo pela idade e pela profissão e para todos um exemplo.

Nascera a 3 de Novembro de 1878 em Santo Emilião, concelho da Póvoa do Lanhoso. Fez os seus estudos no Seminário de Braga, sendo ordenado presbítero a 15 de Março de 1902. Seis meses depois era nomeado pároco de Verim, no arciprestado de Póvoa do Lanhoso onde se conservou pelo espaço de 5 anos. Mas sentia que a vocação de pároco não era a sua. Por isso, com autorização do Prelado de Braga aceitou em Novembro de 1907 a capelania de um Colégio que as Irmãs Dominicanas tinham então em Lagoa, no Algarve. Aí lhe veio a ideia de se fazer Dominicano e em Setembro de 1909 vai a Lisboa combinar com o Padre Domingos Maria Frutuoso, o único dominicano português que havia, a entrada para o Noviciado de Fiésole, na Itália, onde se tinham refugiado os Padres francês da Província de Toulouse, após as expulsões das Ordens Religiosas em França em 1905.

O Pe. Lopes gostava de falar dessa viagem à Itália. Não era preciso nem passaporte nem licença de Consulados; bastava ter dinheiro;  e com quarenta mil réis que levou fez todas as despezas, mesmo com as demoras no caminho, sobretudo em Lourdes, e ainda lhe sobrou dinheiro.

Tomou o hábito a 1 de Novembro de 1909 com outro português e alguns franceses. O noviciado foi um pouco penoso por ser em terra estrangeira, mas lá se foi habituando ao francês e ao italiano.

Foi fazer a profissão a Roma nas mãos do Mestre Geral da Ordem, o santo padre Cormier de que o Padre Lopes guardava gratas recordações.

Repetiu como é de Regra Dominicana os 4 anos de teologia, estudando no Colégio Angélico de Roma.

Em 1915 regressava a Portugal, chegando a Lisboa a 10 de Maio. Daí a dias era mimoseado com uma revolução que o obrigou a ficar em casa três dias. Lembrava-se sempre com certo pavor dessa época de revoluções. Era-lhe difícil guardar nessas ocasiões a serenidade e o sangue frio.

Ficou com o Padre Domingos Maria Frutuoso na Rua Saraiva de Carvalho quase um ano. Em Abril de 1916 vai para o Norte com o Padre José Lourenço acabado de chegar de Roma. Instalados primeiro na Rua de Cedofeita e depois na Rua Miguel Bombarda os dois dominicanos exerceram o ministério em várias igrejas, Cedofeita, S. Bento da Vitória, Carmo, Anjos, etc. O Pe. Lopes dedicou-se sobretudo ao confessionário.

Em Maio de 1920 por ordem do Pe. Domingos Frutuoso o Pe. vai tomar conta da Capelania do Sanatório da Parede perto de Lisboa confiado às Irmãs Dominicanas. Entretanto o Pe. Domingos é nomeado Bispo de Portalegre e sagrado na Basílica da Estrela a 27 de Dezembro de 1920 e o Pe. Lopes fica encarregado do futuro da Província Portuguesa.

Desde 1916 por iniciativa do Pe. José Lourenço cuja ideia era fixar um Seminário ou Escola Apostólica Dominicana, começaram a mandar rapazes para a Espanha afim de se formarem na Escola Apostólica de Mejorada (Valladolid) pertence à Província das Filipinas. Esses estudantes, acabados os preparatórios, iam tomar o hábito primeiro a La Quercia, em Itália, e a partir de 1923 em França, no Noviciado da Província de Tolosa, em Saint Maximain, Var.

É fácil de compreender que os estudos são sempre dispendiosos e no estrangeiro muito mais.

Era preciso pagar a pensão dos que estudavam em Espanha, na Itália ou na França. Deus sabe as canseiras e preocupações que isso acarretou ao Pe. Lopes durante muitos anos. Diga-se em abono da verdade que o Pe. José Lourenço o ajudava eficazmente nesse ponto, mas não havendo fundos tinham todos os meses de recomeçar o trabalho de ajuntar esmolas e retribuições do ministério para sustentar as vocações.

Em 1922 o Pe. Lopes regressa a Lisboa e instala-se na Rua Saraiva de Carvalho. Viveu aí sozinho até 1926 sem desanimar, esperando por melhores dias. A comida vinha-lhe, às vezes dum vizinho, outras vezes ia aos Padres Irlandeses do Corpo Santo que estavam sempre dispostos a recebê-lo. Também se contentava muitas vezes com fruta e pão ou passava longos intervalos sem comer nada.

Em 1926 é nomeado Mestre Geral o Rev. Pe. Boaventura Garcia Paredes da Província das Filipinas. Teria restaurado a Província Portuguesa se não tivesse durado só dois anos o seu governo. Chamou logo o Pe. Lopes a Roma e disse-lhe que queria que abrissem o Seminário ou Escola Apostólica prometendo mandar pessoal. Um mês depois – Novembro de 1926 o Pe. Lopes e o Pe. Lourenço foram para Guimarães para procurar uma casa que servisse para Escola Apostólica. Como não encontrassem nada que servisse o Pe. Lourenço tentou por outra parte e em Abril  do ano seguinte, 1927, apareceu-lhe uma casa em boas condições no Luso, graças à intervenção da Santa Filomena. Depois de aprovada a fundação pelo Visitador Rev. Pe. Nolan, a escola abriu a 4 de Outubro com cinco alunos, dois dos quais trabalham agora na vinha do Senhor.  Em Novembro era designado para Vigário Geral de Portugal o Rev. Pe. Pio Jougla, Prior do Convento de Saint Maximim em França. A sua nomeação tem porém a data de 22 de Dezembro, o dia do Patrocínio de Nossa Senhora sobre a Ordem Dominicana. O Vigário Geral chegou ao Luso em princípios de 1928.

Nos primeiros meses desse ano o Pe. Lopes que ficara em Guimarães deixou esta cidade para se estabelecer em Penafiel e ajudar o clero daquela vila.

Um ano depois o Rev. Pe. Jougla chama o Pe. Lopes para se integrar na comunidade do Luso que constava de 4 Padres e um irmão leigo. A partir de então partilhou a vida de seus irmãos no Luso, depois a partir de 1932 em Mogofores e por fim no Porto para onde seguiu em Setembro de 1938, prestando todos os serviços de que era capaz e chegando a exercer alguns cargos, como o de ecónomo e de Vigário do Superior, etc.

Em quanto teve saúde e forças não se poupou, nem recusou nenhum trabalho.

R.P Tomás Videira

Nota: Em Março de 1946, devido ao seu delicado estado de saúde, é mandando como capelão para as Irmãs Dominicanas de Azurara. Em Janeiro de 1947 o seu estado agrava-se e é internando na Ordem Terceira de São Domingos, em Guimarães. Faleceu a 30 de Novembro desse ano.

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