Convento de S. Domingos no Porto (5)

Convento de S. Domingos – Foi este convento o terceiro que a Ordem fundou em Portugal, a pedido e instancias do Prelado e cabido do Porto.

Reinava em Portugal, havia 14 annos, el-rei D. Sancho II, que pela indolência e falta de critério, se deixaria dominar por validos depravados e sem pudor, que o perderam desprestigiando-o completamente, transformando a nação inteira em um theatro de injustiças, devassidões e crimes de toda a ordem. Presidia então á Sé portuense o bispo D. Pedro Salvador, que tendo conhecimento do zelo, ilustração e dedicação dos frades da Ordem de S. Domingos, dicta dos Pregadores, já então em grande numero na Hespanha, Italia e outras nações, e mesmo em Portugal, onde tinham já dois conventos (um em Monte-Grás, arrebalde de Santarém, d’onde tractavam os frades de trasnferir-se para dentro d’esta vila, como de Monte Junto, nas proximidades d’Alemquer, se transferiram para Monte-Grás, – outro em Coimbra) lembrou-se de que estes frades com a pregação e humildade que tanto os distinguia e recommendava por aquelles temnpos, muito poderiam ajuda-lo a enfrear a immoraldiade e excessos dos seus diocesanos; e communicando esta lembrança ao cabido, este louvou a idéa, e logo assentaram em mandar um próprio ao capitulo provincial que a ordem devia reunir proximamente n’aquelle mesmo ano de 1237, na cidade de Burgos. Chegou a tempo o mensageiro, que foi muito bem recebido, e logo foi aberta e lida no deffinitorio, a mensagem do bispo e cabido, escripta em latim.

Respondeu o Deffinitorio annuindo, e logo mandou para o Porto dois religiosos – fr. Gualter e fr. Domingos Gallego, que forma recebidos com alvoroço. Immeditamente se lhes deu posse da egreja e cerca promettidas, e começaram a pregar e confessar, ensinando, nas horas vagas, a doutrina christan, em casa e pelas ruas, tratando juntamente da construcção do mosteiro.

Não tardou muito que viessem outros frades unir-se áquelles dois, dando maior área à predica e doutrinamento na cidade e circumvisinhanças, e ganhando grande prestigio entre o povo que corria em tropel a auxilial-os na construcção do mosteiro, principalmente depois que o bispo concedeu por uma provisão, muitas graças e indulgencias a quem auxiliasse e protegesse os frades.

Daremos aqui textualmente aquella provisão, por ser um documento curioso para os tempos d’hoje, e interessantíssimo para a historia das tormentas que em breve rebentariam:

«Pedro, pola paciência de Deos, Bispo do Porto, a todos os moradores deste nosso Bispado, assi Ecclesiaticos, como Seculares, saúde, e acrescentamento em bem fazer. Sabereys que nós recolhemos nesta nossa Cidade para morarem nella, os Frades Pregadores, com consintimento e gosto dos Cónegos, e de todos os Cidadaons, tendo por certo que a sua companhia he necessária, e há-de ser de proveito temporal, e espiritual para todos os moradores da cidade e Bispado. Pela qual rezão, visto como os Religiosos não possuem nenhuma cousa de proprio, nem podem compor sua Igreja, e fabricar as casas, de que tem necessidade, sem vossa e minha ajuda, rogamo-vos a todos, e em remissão de vossos pecados, vos encarregamos, que mostreis com elles facildiade, e devoção, assi em os ajudar a cortar, e ajuntar a madeyra, como no carreto da pedra necessária para a obra, conforme aquillo: Pera si edifica, quem a Deos faz casa. E por tanto confiando nós plenissimamente na misericórdia de Deos a todos aquelles que fielmente lhes acudirem no colher da madeyra, e carregar da pedra: ou lhes derem por si, ou por outrem, hum dia de trabalho na obra, concedemos quarenta dias de perdão das penitencias que lhe forem impostas. Dada no Porto a 6 de Março da era de 1276 (1238 de Christo). Valha por tempo de dois annos.»

Todos se apressaram a auxiliar os frades, e o próprio prelado lhes deu para alargamento da fabrica uns chãos contíguos, que eram propriedade sua; mas (diz a chronica) «ou fosse que o clero entrasse de ciúmes das grossas esmolas que corrião ao convento, e julgasse de algumas que começaram a entrar por enterros, benesses e legados de testamentos (como na cidade ao tempo ainda havia apenas um freguezia – a da Sé) que tudo o que hia para os frades, era como água furtada á herdade dos clérigos, ou fosse inveja….ou tudo junto» bispo e cabido, reconsiderando, embargaram as obras, e por um notário apostólico, o prelado os mandou intimar para que não mais pregassem, nem confessassem, nem celebrassem missa, nem qualquer outro officio divino.

Ficaram os bons dos frades slenemmente perplexos e de braços cruzados, mas o povo pronunciou-se por elles e correu com mais fervor a tratar da obra, como cousa sua, o que o prelado obviou de prompto, fulminando com censuras todos os que dessem favor, ajuda ou conselho para a continuação das obras!!….

Instaram com o bispo e cabido, varias pessoas das mais auctorisadas do Porto, para que não hostilisassem os f´rades; secundaram o mesmo pedido a santa Rainha D. Mafalda, tia d’el rei, ao tempo D. Sancho II, e o arcebispo de Braga D. Silvestre, mas nada conseguiram. Declararam os cónegos insanavelmente nullas varias doações feitas por particulares ao convento, de bens foreiros ao cabido, e rescindiram escripturas de vendas de terrenos feitas por elles aos frades.

Em tão grande aperto, dirigiram-se estes ao romano pontífice, então Gregório IX, que proveu logo no caso, com um breve que dirigiu ao arcebispo de Braga, para que este fizesse saber ao bispo e cabido do Porto, que S. Santidade muito estranhava o seu procedimento, e lhe rogava e admoestava, com rigoroso preceito de santa obediência, que deixasse os frades em paz, e levantassem dentro de 8 dias depois de feita esta intimação, o interdicto e mais censuras fulminadas contra os benfeitores do convento, e não mais molestassem os frades, nem consentissem que alguém os molestasse; e que, quando o bispo e cabido recalcitrassem, dava plenos poderes a elle arcebispo, para levantar as censuras impostas, sem apellação, e para, em nome da Santa Sé, reprimir qualquer nova aggressão contra os dictos frades. Dado em Anagnia aos 24 de Setembro de 1238.

Recebido o breve apostólico, ainda tentou o arcebispo congraçar amigavelmente com os frades o bispo e o cabido, mas, o menos que estes pediam por ultimo era – que os frades não dessem na sua egreja sepultura geral nem particular, nem recebessem offertas, – o que visto pelo primaz, publicou o breve, e logo o bispo e o cabido cederam, e não mais ousaram inquietar os frades. Por esta ocasião, já no anno de 1293 [1239], el-rei D. Sancho II, por uma provisão, se declarou auctor, fundador e padroeiro do dito Convento.

Em virtude d’esta provisão e d’aquelle breve, subiu de ponto a consideração para com os frades, e as obras se desenvolveram como por encanto, povoando-se logo a casa de grande numero de frades, que não cessavam de pregar e doutrinar, no convento, na cidade e fora d’ella.

Passados 60 annos (em 13 de Setembro de 1300) confirmou D. Diniz, por outra provisão aquella de D. Sancho, e de novo declarou este convento do padroado real. «Pelo que (diz a provisão de D. Diniz) mando e defendo que ninguém ouse fazer mal ou força a este Mosteiro, nem a estes frades, nem a seus homens, nem a suas agoas, nem a cousa alguma que lhe pertença. E aquelle que tal fizer eu o considerarei meu inimigo e pagará seis mil soldos, e em dobro o prejuízo causado ao Mosteiro».

Viam-se também sobre o arco da capella-mór d’este mosteiro as espheras d’el rei D. Manuel, o que tudo prova que esta casa era do padroado real; mas não há memoria de que os nossos reis lhe dessem, como deram a outros muitos, rendas ou bens alguns da coroa; apenas a rainha Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, deu ao bispo e cabido do Porto a egreja de Santa Cruz, que era do padroado d’esta rainha, nas margens do Leça, e isto em compensação das perdas e dannos que o estabelecimento d’este mosteiro podessem sofrer o bispo e o cabido, e para não mais se repetissem querelas e aggravos similhantes.

Congraçou-se lealmente o bispo com os frades, e de seu perseguidor, se converteu em benfeitor, dando-lhes avultadas esmolas, e nomeadamente, em 1245, agua de herdades suas, para abastecimento do mosteiro. Deu-lhes também agua Domingos Gonçalves Ferreira; e a melhor, os frades franciscanos, pela licença concedida pelos dominicos para a conduzirem atravez da cerca d’estes.

Apenas terminaram as querellas movidas pelo bispo e cabido, mandaram os frades lagear a sua egreja, cravejando-a de sepulturas, que foram logo requeridas á competência, e porque já não podiam satisfazer aos requerentes, o prior do convento, D. fr. Pedro Esteves, mandou levantar um grande alpendre, cobrindo o adro, que logo se encheu também de sepulturas, servindo ao mesmo tempo de recreio e praça ou casa de negocio, á imitação das grades da Sé em Sevilha. O alpendre de S. Domingos, por estar ao abrigo da chuva e do sol, e por ser ponto muito central da cidade, e haver n’ella falta sensível de edifficios para repartições publicas (falta bem sensível ainda hoje, 1877) serviu muitos annos de tribunal, e alli os juízes ouviam e despachavam as partes. Sobre o vão tomado pelo alpendre, se levantou mais tarde a fachada norte e principal do convento, única parte que poude salvar-se á voracidade das chammas que consumiram todo o vasto edifício.

N’esta fachada do convento está montada a Caixa Filial do Bancod e Portugal, e o vão restante, que era tomado pela cerca, egreja e casa dos frades e dos extinctos terceiros dominicos, tendo passado para a fazenda, com a extinção dos conventos, em 1834, foi pelo governo cedido parte para a abertura da rua Ferreira Borges, e o restante dividido em lotes, e arrematado por diversos, para edificações particulares e casas bancárias, achando-se n’esta data (Maio de 1877) já feitas, n’aquelle terreno, em seguida á Caixa Filial do Banco de Portugal, magnificas casas sobre a rua Ferreira Borges, e sobre a nova rua de S. Domingos.

_

 

Em 1448, se instituiu na egreja d’este convento, uma confraria com a invocação do Senhor Jesus, por causa da qual se suscitaram litígios impertinentes, que duraram seis annos; e que o chronista por prudência calla, dizendo apenas que se houve por milagre, obterem os religiosos sentença favorável. Menciona, em seguida, varias curas miraculosas, attribuidas á toalha que envolvia a imagem do Senhor Jesus, patrono d’aquella confraria, e que Maria Gonçalves foi uma das felizes creaturas curadas, no 1º de Janeiro de 1575, pela aproximação da toalha do Senhor.

Junto á egreja d’este convento, havia um ermida antiquíssima, para qual se subia por uma escadaria muito íngreme e de muitos degraus, e suppõe o chronista, ser esta a egreja que o bispo D. Pedro offerecia aos frades, na mensagem que mandou ao capitulo de Lugo, e n’aquella ermida, ou egreja velha, existiu muitos annos uma confraria, que n’ella instituíram os mercadores da cidade, por contracto feito com os frades, em 1556.

Entre os religiosos d’este convento, avultaram, além dos fundadores, fr. Gualter e fr. Domingos Gallego – o religioso fr. Domingos do Porto, natural d’esta cidade, pessoa de tanta illustração e virtude, que o papa Nicolau 3º, o escolheu para seu penitenciário, em Roma, e no mesmo cargo o conservaram os papas Celestino 5º e Bonifácio 8º – e de Roma enviou, para este convento, sommas fortes, peças e álfayas ricas, sobresahindo um grande caliz dourado, com lavores e esmeraldas, e um paramento de subido preço.

Foi também capellão do summo pontífice um outro religioso d’este convento, por nome fr. Álvaro do Porto.

A rainha Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, onde jaz sepultada, deixou em testamento, a este msoteiro de S. Domingos, uma notável relíquia (do Santo lenho) declarando que fora de Santa Helena – outra de S. Braz – duzentos morabitinos e cem medidas do melhor pão do seu celleiro de Bouças, instituindo por seu testamenteiro a fr. Gualter, um dos dois primeiros frades que se albergaram n’esta casa.

De tempo immemorial, hia todos os dias um religioso d’este convento, à Sé, leccionar casos de consciência, aos clérigos e seculares, e por este trabalho, davam os bispos ao convento uma esmola perpetua; e por comissão do inquisidor-geral, hia também um frade, d’este convento, visitar todos os navios estrangeiros, que ancoravam no Douro, principalmente os que vinham de terras suspeitas a heresia, para se evitar a entrada de livros ímpios.

Na egreja d’este convento, tinham carneiros e sepulturas distinctas, os Pachecos Pereiras (de Bello-Monte) do Porto, e alli foram sepultadas muitas pessoas d’esta família.

(Vide n’este mesmo artigo, Pachecos Pereiras, do Porto.)

Havia também n’esta egreja, do lado do Evangelho, um rico tumulo de mármore branco, sustentado por quatro leões também de mármore, e n’este tummulo jazia o bispo do Porto, D. fr. Aleixo, que tinha sido d’esta ordem.

Não se sabe como desappareceu esta obra d’arte. Suppõe-se que foi roubada e vendida a estrangeiros!…..

Este mosteiro foi em parte devorado por um incêndio em 1777, e durante o cerco do Porto, em 1832, outro incêndio maior, o devorou quasi todo, restando pouco mais do que a fachada norte, alugada no 1º de Junho de 1834, pelo Banco de Portugal, para n’elle estabelecer, como estabeleceu, a sua Caixa Filial; e para o mesmo fim, comprou aquella parte do edifício, quando foi pelo governo posto em praça, com vários chãos, ao longo da rua Ferreira Borges, em 1865. Fez em seguida, o Banco de Portugal, obras importantes na casa que arrematou, e por essa occasião foi apagada uma inscripção latina, que estava na frente do edifício, e que em vulgar dizia:

 

ESTA ORDEM FUNDOU A EXPENSAS SUAS,

EM SAGRADO ATRIO, ESTE EDIFICIO NOTAVEL

PELAS MARAVILHAS D’ARTE

 

Também foi apeado o emblema da ordem, que rematava e decorava a frente.

Nas escavações feitas em 1866, no sitio do convento, achou-se uma pedra, de 2m42 de comprido, sobre 1m32 de largura, e 0m28 de espessura, com a inscripção seguinte:

 

S. DO LETTRº FRANCISCO DE MATOS,

CIDADÃO DESTA CIDADE,

E ADVOGADO DOS VINTE DA RELAÇÃO D’ELLA,

E DE SUA MULHER

LUIZA PAIVA SOARES,

E SEUS DESCENDENTES

E SUCESSORES D’ESTA CAPPELA.

1660

 

A fonte que hoje se vê no jardim publico de s. Lazaro, pertenceu a este convento, e d’elle foram também as mesas de mármore que estão no museu da Bibliotecha Publica.

Existiu e funcionou muitos annos, em capella e casas próprias, a ponte d’este convento, a Ordem Terceira de S. Domingos, que em conesquencia das grandes questões, entre ella e os frades, foi suprimmida pelo romano pontífice, mas logo no mesmo anno restaurada, como Ordem da Santíssima Trindade, sem sujeição alguma aos frades; e como estes se houvessem assenhoreado da sua capella, depois da restauração, passou a dita ordem, provisoriamente, para a capella próxima de S. Chrispim, na Biquinha, e d’alli para a capela da Batalha, d’onde passaram para a capelinha do Senhor Jesus do Calvário Novo, na Cordoaria, e d’alli para o largo do Laranjal, onde levantaram a magestosa fabrica que alli se vê, e que deu á velha praça do Laranjal, o nome que hoje tem – Praça da Trindade.

(Dr. Pedro Augusto Ferreira,

Abbade de Miragaia.)

In Portugal Antigo e Moderno, vol. 7º, Lisboa, 1877

 

 

 

 

 

 

 


 

Chonica de S. Domingos por Fr. Luiz de Cacegas, correcta e augmentada por Fr. Luiz de Sousa, 1ª parte, liv. 3º, pag. 283 e seguitnes.

(Vide Monte-Junto, a pag. 478, col. 2ª in fine, do 5º vol.)

Aquella provisão foi publicada em latim, mas nós a damos em vulgar, como a traduziu Fr. Luiz de Sousa….

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: