Convento de S. Domingos no Porto (4)

Porto, 1 de Dezembro

No dia 28 do passado exhalaram os rebeldes a sua indignação pela vergonhosa sopreza que em seu campo fizeram as nossas tropas; e procuraram vingar a injuria recebida á força de bombas e ballas, disparadas contra a cidade. O convento de S. domingos foi incendiado por uma das bombas; e é de notar que uma grande parte do dia e da noite, em quanto os rebeldes viram pelo fumo e clarão das labaredas que o incêndio augmentava, não cessaram as suas baterias de atirar contra o edifício que ardia, a fim de poderem melhor empregar seus tiros na gente que suppunham empregada em apagar as chammas.
Se alguma prova faltasse para demonstrar a ferocidade e a infâmia dos chefes do exercito usurpador, este procedimento seria bastante para convencer o mundo de que é impossivel haver homens mais perversos e mais indignos de que os que servem D. Miguel. Os defensores do throno e do altar lançando bombas em conventos e templos, e procurando matar a gente que acode a apagar o fogo ateado nelles! Salvou-se a Igreja, e a parte do edifício contíguo a ella. Acudiu a companhia dos fogos, que sem medo algum dos tiros se portou com admirável actividade, fazendo todos os indivíduos que compõem vivas diligencias por atalhar o progresso do incêndio. Esta companhia, ainda que menos numerosa do que aprece ser necessário nas circunstancias actuaes, supprio a falta de gente pela diligencias , e zelo com que se houve. Consta-nos que o Juiz de Fora appareceu a tempo, assim como o Coronel commandante do deposito militar e outras pessoas, movidas pelo desejo de concorrer para tão louvável fim, como o de salvar um bello edifício e um templo magnifico da voracidade dos chammas.
O grande numero de bombas, algumas das quaes caíram no próprio logar aonde o fogo ardia, não fez desviar por um instante os homens que trabalhavam, nem os que presidiam aos trabalhos: pode dizer-se com verdade que ninguém reparava em seu próprio perigo, dando unicamente attenção ao perigo commum, o da perda do edifício.
A bomba que fez levantar este incêndio caiu em um armazém de linho. E como a casa estava fechada, e nem o dono da fazenda, nem alguma pessoa interessada appareceo a tempo, houveo-o de pegar o fogo: não succederia assim acudindo-se com as providencias necessárias, como se tem feito em outras partes, em que se hão tornado inúteis os esforços dos rebeldes para incendiar a cidade. Esperamos que haja toda a vigilância necessária para atalhar similhantes males.
Hontem renovaram os rebeldes o bombardeamento que durou activo desde as 8 e meia da manhã até ás cinco da tarde. Lançaram na cidade grandíssimo número de projecteis, mas não nos consta que estes fizessem damno extraordinário: nem sabemos de mortes por elles causadas, á excepção de um pobre Gallego, creado do convento de S. Domingos!
O povo do Porto está inteiramente familirisado com estes horrores. Em quanto da outra banda do rio trovejavam as baterias dos inimigos, ia gente pelas ruas cantando o hynno constitucional; e de quando em quando praguejava contra o rebeldes que tão deshumanos como poltrões, só sabem guerrear os seus adversários incendiando os templos, e as casas dos habitantes inermes. Esta é a sublime strategia dos Sampayos, Barbacenas, e Champbells. Essa gente é uma companhia de assassinos: os verdadeiros militares são humanos, são generosos, e horrorisam-se á simples ideia de uma destruição inútil de que são victimas aquelles; que nem tomam armas, nem podem acautellar-se dos estragos desta guerra traidora e deshumana, – a guerra que tão indignos e fracos inimigos estão fazendo.
Fartem-se, que breve chegará o tempo da justíssima vingança. Não são os soldados os criminosos de tantos horrores. Os chefes, os monstros, e os demais traidores, que rodeam o usurpador, são os que hãode pagar os damnos feitos em propriedades e em vidas que se tem perdido no Porto.

In «Chronica Constitucional do Porto», de 1 de Dezembro de 1832

N.B. em o Nº 120 da Chonica demos uma breve relação do incêndio ateado no convento de S. Domingos desta cidade por uma bomba que nelles caiu em o dia 28 do mez passado. Referimos o acontecimento não particularisando circunstancias; e fallamos de pessoas que acudiram com socorros e providencias sem nomear individualmente mãos do que uma authoridade civil e outra militar. Não se creia que assim o fizemos de propósito. Hoje sabemos que os Snrs. Tenente Coronel Pimentel, que serve de Major da Praça, Coronel Serra, commandante do Corpo de engenheiros, Major Pinto, chefe da policia militar, Major Athyde do Estado-major, Capitão Coito, Tenente Infante de Lacerda, Ajudante Heitor, o commandante da companhia das Bombas e seus officiaes, um sargento e alguns soldados se acharam no logar do incêndio, e activamente trabalharam para salvar o edifício, e valiosa propriedade que nelle se achava, o que me grande parte conseguiram. Esta menção é devida; e se a não fizemos, foi porque nos faltou uma relação exacta do successo; e não porque nos aprouvesse omittir os nomes dos officiaes conhecidos por seu patriotismo, que uns por dever e outros por mero zelo do bem publico, se houveram como cumpria a homens do seu carácter. O nosso desejo é fazer justiça á verdade: será injusto quem do contrario nos tachar.

In «Chronica Constitucional do Porto», de 10 de Dezembro de 1832

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