Convento de São Domingos do Porto (3)

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Convento de S. Domingos
(Convento de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus do Porto, 1238-1832),
visto do Largo de S. Domingos.

in «Edifícios do Porto em 1833», Álbum de desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vilanova, Ed. Biblioteca Municipal do Porto, 1987;

Era o convento de São Domingos, com invocação de Convento de Nossa Senhora dos Fiéis, o mais antigo da cidade do Porto. Poucos anos depois do primeiro dominicano a chegar a Portugal, Frei Sueiro Gomes, já os membros da Ordem dos Pregadores tinham o seu Convento de Santarém e de Coimbra.

O Bispo do Porto, D. Pedro Salvadores, vendo o ardor, acção e métodos daquela nova ordem religiosa, enviou ao Capítulo Provincial dos Frades da Ordem dos Pregadores, reunido em Burgos no ano de 1237, uma solicitação para que se viessem instalar na cidade. Sendo então S.Frei Sil o provincial de Portugal, foi tal pedido recebido com grande alegria e prontamente aceite. Enviaram-se os Frei Gualtero e Domingos Galego para a cidade onde prontamente receberam do Bispo uma Capela e umas casas no local onde seria construído o futuro convento[1].

Parece que passado pouco tempo e por pressão do Cabido da Sé, o bispo terá tentado voltar atrás com a sua palavra, interrompendo-se as obras, vindo a ser retomadas apenas por força da intervenção do próprio Papa Gregório IX. Com efeito, este por intermédio de Bula de 24 de Setembro de 1238 mandou levantar o interdito que o bispo tinha lançado para que o povo não acolhesse nem contribuisse para a edificação do novo convento.

Ao longo da sua vida multisecular, foi um edifício que sofreu bastante. Em 1357 um violento incêndio destruiu-o por completo, sobrando apenas umas paredes da igreja. Em 1523 um outro incêndio destruiu os dormitórios dos frades[2]. O terrível Terramoto de 1 de Novembro de 1755 também afectou seriamente o convento, arruinando a sua igreja que necessitou de ser totalmente reconstruída, segundo nova planta[3]. Mas logo em 1777 terá sofrido novo incêndio destruidor[4].

Era a igreja do convento constituída por 3 naves «sendo a do meio mais elevada, iluminava o interior com o seu clerestório». Dividas em quatro tramos, por arcos ogivais assentes em pilres, «sem bases, subindo lisos até os capitéis», distanciados uns dos outros de 5m,72. «O comprimento tomado desde o cruzeiro à fachada principal não ultrapassava 27m,28 e de lagura de parede a parede 16m50»[5].

De acordo com o padre Agostinho Rebelo da Costa[6], em1788 existiam no convento dominicano do Porto 40 frades.

Em 1821, fruto da disposição das Cortes Constituintes que mandaram realizar um inventário geral de todos os conventos, sabe-se que apenas ali residiam 14 frades e dois conversos, sendo seu prior Fr. Joaquim José de Santa Gertrudes Escadinha[7].

Passados 11 anos, em 1832, apenas temos notícia da existência de 7 frades.

Na véspera da entrada na cidade do Porto das tropas comandadas por D. Pedro, Duque de Bragança e Regente de Potugal, que se concretizou a 8 de Julho de 1832, muitos foram os apoiantes de D. Miguel que por medo de represálias e para sua segurança abandonaram a cidade.

Entre eles encontrava-se o bispo da cidade do Porto.

Consolidada a situação na cidade, logo D. Pedro de Bragança ordenou a eleição de um Vigário Capitular da Diocese, à qual ocorreram 42 clérigos, entre religiosos e párocos.

Dos autos[8] de tal evento, realizado logo a 30 de Julho de 1832, se diz ter sido eleito Fr. Manuel Simões de Santa Inês, dos religiosos de Santo Agostinho Descalços, assinalando-se, entre os eleitores 7 frades da Ordem dos Pregadores:

Frei João Baptista Pinto;

J. Conerlis O’Dea;

Frei Francisco Pinto Machado;

Frei António do patrocínio Pinheiro

Frei Domingos de Mesquita;

Frei António de Santo Tomás Sousa;

Frei Bernardino Peixoto;

Todos eles terão votaram favoravelmente.

Mas nem pela colaboração em tão irregular acto os frades dominicanos lograram assegurar a continuidade do seu convento. Os ventos da futura extinção geral já tinha sido iniciados pelo governo de D. Pedro aquando da sua passagem pela Madeira. Ali foi instituída a Comissão Administrativa dos Bens dos Conventos Extintos ou Abandonados. Fosse por precisar das instalações em face da guerra que se travava, fosse por animosidade, fosse ainda pela insuficiência do número canónico de frades residentes para ser considerado um Convento, o certo é que D. Pedro determinou considerar o mesmo como abandonado. Ainda que o não estivesse.

Assim, no dia 30 de Outubro de 1832 os comisários régios fizeram o inventário de tudo quanto havia no Convento, «sendo neste acto prezentes os Padres conventuaes do mesmo convento». Curiosamente exactamente os mesmos antes referidos, com o acrescento da indicação da existência de mais «2 conversos»[9].

Durante os combates que se realizaram durante o Cerco do Porto, as forças miguelistas, instaladas no Mosteiro da Serra do Pilar realizaram vários bombardeamentos sobre a cidade. Um deles, a 28 de Novembro de 1832[10], provocou o incêndio e destruição quase que por completo do pouco que restava do Convento de S. Domingos.

Dele pouco mais ficou de pé do que a fachada virada para o Largo fronteiro a que desde sempre dera o nome. Nas lojas existentes no espaço do antugos arcos se tinha instalado, em 1825, a filial do Banco de Lisboa, o qual em 1846 veio a dar origem ao Banco de Portugal.

Após a abertura de novas instalações na então recentemente aberta Praça da Liberdade, aquele banco para ali se mudou em 24 de Abril de 1934. Foi então o edifício do antigo convento ocupado pela Companhia de Seguros Douro até 1989, encontrando-se desde então em adiantado estado de ruína.

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[1] História de S. Domingos, Frei Luís de Sousa, Lello & Irmão, Porto, 1977, Pág, 304 e ss.,

[2] Notícias do Velho Porto, Eugénio e Andrea da Cunha e Freitas, Campo das Letras, Porto, 2006, pág, 10;

[3] O Porto no tempo dos Almadas, Vol. I, Joaquim Jaime B.Ferreira Alves, C.M.P., Porto, 1988, pág.92;

[4] Eugénio Cunha e Feitas, op. cit, pág. 10;

[5] A Igreja de S. Domingos no Porto, Soares de Oliveira, Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Porto, 1952, pág. 9;

[6] Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, 3ª edição, Edições Frenesi, Porto, 2001, Pág. 104,

[7] Do Mosteiro de S, Domingos, in Tripeiro,V série, ano IV, Agosto de 1948, por C. da Cunha Coutinho;

[8] Manuscritos Inéditos da BPM, II Série-5, Henrique Duarte de Sousa Reis, Porto, 1999, Pág. 294,

[9] idem nota 7;

[10] idem, nota 8, pág. 119

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