Bonaventura Garcia de Paredes

O Reverendíssimo Padre Garcia Paredes OP

Há mais de um ano que se falava na morte do Reverendíssimo Padre Paredes, antigo Mestre Geral da Ordem. Não havia porém, confirmação oficial. Informações das autoridades tanto vermelhas, como nacionalistas, e testemunhas oculares não deixam dúvidas sobre a triste realidade do assassínio do Reverendíssimo Padre Paredes. Na Carta Circular “Inter Máximas” de 2 de Outubro de 1938 o actual Mestre Geral, Reverendíssimo Padre Gillet, participa à Ordem a dolorosa noticia. Dessa circular extraímos os seguintes dados da vida do ilustre defunto.

Vocação e Estudos – Nasceu em Castanedos de Valdés, na Provincia das Astúrias, em 16 de Abril de 1866. Seus piedosos pais, Serapião Garcia de Paredes e Maria Gallasa, procuraram inculcar-lhe uma boa e sólida educação. Boaventura depressa revelou sinais de vocação eclesiástica. Por ocasião duma missão pregada numa povoação vizinha por dois padres dominicanos, Boaventura afeiçoou-se à Ordem de S. Domingos. Um dos pregadores, o Padre Sacrest, tendo sido enviado a Castanedo três anos a seguir à festa da Confraria do Rosário que se celebrava na segunda-feira de Páscoa, Boaventura já com 13 anos de idade, foi-lhe apresentado e pediu a graça de ser recebido na Ordem. Por conselho do Padre ficou ainda na casa paterna frequentando durante um ano a Escola de Don António Francos Pertierra, pároco do lugar. Depois foi admitido na Escola Apostólica de Córias pertencente à Província de Espanha. Após dois anos de estudos com óptimos resultados, os seus mestres julgaram-no habilitado para ser recebido o noviciado. Os Superiores ante a sua delicada compleição física hesitaram e adiaram a admissão. O jovem Boaventura para seguir a sua vocação foi bater às portas do Convento de Ocana, Toledo, e pertencente à Província Dominicana das Filipinas. Tomou o santo hábito em 30 de Agosto de 1883, habitando durante o Noviciado a cela que fora do mártir Melchior Garcia Sampedro. Em 31 de Agosto do ano seguinte fazia os votos simples e em 1887 consagrava-se plenamente a Deus pelos votos solenes. Em Ocana fêz os estudos filosóficos e no colégio de Santo Tomás de Ávila os teológicos. Antes porém de os terminar foi mandado frequentar as Universidades de Salamanca, Valência e Madrid, tendo sido promovido a bacharel de direito civil na primeira, e alcançado na última o doutoramento em Filosofia em Belas Letras e em Direito civil. Com tão óptima preparação foi enviado para Manila, Filipinas, onde teve ainda de fazer o exame de Leitor e no ano seguinte (1900) era-lhe confiado o posto de Lente de Direito civil na Universidade dominicana daquela cidade.Em 1901 voltava à Europa como Reitor do Colégio Teológico de Ávila. Em pouco tempo ganhou a estima das autoridades civis e eclesiásticas e as grandes famílias procuravam-no para solucionar os litígios domésticos. Foi durante algum tempo professor de direito canónico noSeminário Conciliar de Ávila.A sua grande ciência jurídica permitiu-lhe defender brilhantemente algumas causas da Ordem nos tribunais civis. Em 1903 funda com a aprovação dos superiores, para a educação da juventude, o Colégio de Santa Maria de Nieva, na Província de Segóvia, que sob a sua direcção conheceu uma grande prosperidade.

O Provincial – Em Janeiro de 1910 é eleito Prior do Convento de Ocana e em Maio do mesmo ano Provincial da Província das Filipinas. Esta Província é essencialmente missionária, tendo a seu cargo numerosos territórios do Tonquim, China, Formosa, Japão, etc. O P. Boaventura G. De Paredes visitou essas missões mais que uma vez, aumentando as esmolas, mandou construir hospitais, colégios para dos dois sexos, etc.Favoreceu a divisão do território em novas Prefeituras, oferecendo-as a religiosos doutras Províncias. Fundou uma revista missionária, Misiones Dominicanes que ainda se publica em Ávila.Em Manila, sede da Província, também se fez sentir o impulso do Padre Paredes. Em 1911, por ocasião do terceiro centenário da fundação da Universidade de Santo Tomás, tendo adquirido um terreno com 50.000 m2, colocou a primeira pedra de novos e mais grandiosos edifícios para a mesma universidade. No mesmo ano funda uma missão e toma o encargo de algumas paróquias no Distrito de Tangipahoa nos Estados Unidos e funda o Colégio Teológico de Rosaryville. Para o recrutamento dos religiosos funda a Escola Apostólica de La Mejorada , perto de Olmedo, Valhadolid, que ainda conta com mais de cem alunos. O cargo de Provincial dura na Ordem quatro anos. O Padre Paredes, porém por vontade expressa de S. S. PioX continuou no seu posto para maior bem da Província.Em 1917 retira-se para Madrid onde funda o Convento de Torrijos e de que foi Superior durante nove anos. Consagrou-se inteiramente ao serviço das almas. Inúmeras comunidades religiosas e leigos, entre eles o célebre D. António Maura, recorriam às suas luzes e seguiam a sua direcção espiritual.

O Mestre Geral – Ocupado neste ministério sagrado foi surpreendido pela delegação do Capítulo Geral de Ocana que o veio chamar em 22 de Maio de 1926 para a suprema magistratura da Ordem. Prostrado diante dos Padres Capitulares pediu, suplicou, que não lhe impusessem fardo tão pesado. Não foi aceite o seu pedido e ele submeteu-se. Logo no início do seu curto generalato escreveu à Ordem uma belíssima carta sobre o flagelo do individualismo.Preparou a reforma das Constituições das Irmãs de clausura segundo as directrizes do Novo Código da Igreja e a redacção definitiva das nossas; confirmou S. Luís Beltrão, Padroeiro dos Noviciados Dominicanos; alcançou da Santa Sé para as casas de noviciado e de estudo da Ordem o privilégio de ter a santa Reserva e para todos os fiéis o singular privilégio de ganhar uma indulgência plenária todas as vezes que, tendo-se confessado e comungado, recitarem o Terço do Rosário diante do Santíssimo Sacramento. Como o Colégio Angélico de Roma, fundado pelo Venerável Padre Cormier fosse já insuficiente – frequentam-no perto de mil alunos eclesiásticos de todas as nações – comprou ao Governo italiano o nosso antigo convento de S. Domingos e Sixto, que com as adaptações que fizeram ficou um magnifico edifício para a Universidade Dominicana de Roma. “Foi uma bela página do seu Generalato” diz o actual Mestre Geral.Visitou muitas Províncias da Ordem fomentando por toda a parte a disciplina religiosa. Porém o seu estado de saúde, sempre precária, agravou-se nos fins de 1928 e princípios de 1929, pelo que julgou dever de consciência pedir a demissão à Santa Sé. Por carta de 30 de Março de 1929 do Secretário de Estado, S. S. Pio XI aceitava a demissão e elogiava publicamente os seus altos serviços prestados à Ordem. A Província portuguesa tem uma grande dívida de gratidão para com o Reverendíssimo Padre Paredes. Declarou logo de início que queria restaurar mesmo à custa de grandes sacrifícios “Esta província de tão grandes gloriosas tradições”. Sob o seu impulso o Reverendíssimo Padre José Lourenço funda em 1927 a Escola Apostólica de Luso e a Província de Tolosa sede o Reverendíssimo Padre Jougla, nomeado Vigário do Mestre Geral em Portugal. O Rev. P. Paredes apoia-o com toda a sua autoridade e declara-lhe expressamente que lhe enviará os Padres que ele julgar necessário. O Padre Jougla nunca se atreveu a usar deste poder com medo de abusar, ou antes, melindrar outras Províncias.Com a saída do Padre Boaventura G. De Paredes muito perdemos, mas o grande impulso estava dado e embora lentamente a Ordem vai progredindo no nosso país.

Depois da demissão até à morte – O Reverendíssimo Padre retirou-se para o Convento de Ocana e entregou-se de novo à direcção das almas, sobretudo religiosas, quer em Ocana quer em Madrid. Assistiu aos Capítulos Gerais de Roma em 1929, de Sauchoir (Bélgica) em 1932 e de Roma em 1935 ”dando sempre um belo exemplo de simplicidade e de magnidade”.A revolução de 1936 veio encontrá-lo em Ocana. O Reverendíssimo Padre julgou mais prudente, refugiar-se em Madrid. Apesar de todas as precauções caiu nas mãos dos vermelhos no dia 14 de Agosto. Soube-se depois que fora fuzilado no mesmo dia. “Recebeu com grande serenidade os que pouco depois seriam seus verdugos, disse-lhes que o seu único crime era de ser religioso”. “Caiu”, escreve o Padre Gillet, “como um forte no combate por afirmar e confessar publicamente os direitos de Deus contra aqueles que se declaram abertamente inimigos da Divindade”. O Santo Padre Pio XI na sua alocução aos espanhóis, que, fugindo da perseguição, se refugiaram em Itália, em Roma sobretudo, e aos quais Sua Santidade quis dar uma audiência especial em Castelgandolfo, aplicou aos espanhóis violentamente mortos pelos ímpios, aquelas palavras do Apóstolo: O mundo não era digno deles (Ad. Heb.XI, 38) e os declarou “verdadeiros mártires em toda a sagrada e gloriosa acepção da palavra”. Com toda a razão os podemos por conseguinte chamar mártires e converter a nossa tristeza em alegria porque foram julgados dignos de sofrer o opróbio pelo nome de Jesus e oferecer ao Filho de Deus o testemunho do sangue.“No que diz respeito ao nosso Padre toda a sua vida, que foi uma contínua união com Deus, pela prática da humildade e da mansidão aliadas com a simplicidade e a magnanimidade que pareciam serem-lhe conaturais, de tal maneira ela as possuía, a sua vida, digo, teve o fim mais digno de ser apetecido, pois fora uma óptima preparação para o martírio”. Enquanto a Igreja não se pronunciar, é dever nosso orar pela alma do Reverendíssimo Padre Boaventura Garcia de Paredes.
M.M.V.

In revista “Rosa Mística” nº4, ano II, Janeiro de 1939

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