Convento do Porto (2)

CONVENTO DE SÃO DOMINGOS

Foi este convento (1) o terceiro que a Ordem fundou em Portugal, a pedido e instâncias do Prelado e cabido do Porto.

Reinava em Portugal, havia 14 annos, el-rei D. Sancho II, que, pela sua indolência e falta de critério, se deixara dominar por validos depravados e sem pudor, que o perderam desprestigiando-o completamente, transformando a nação inteira em um teatro de injustiças, arbitrariedades, devassidões e crimes de toda a ordem. Presidia então a Sé portuense o bispo D. Pedro Salvador, que tendo conhecimento do zelo, ilustração e dedicação dos frades da Ordem de S. Domingos, dicta dos Pregadores, já então em grande número na Espanha, Itália e outras nações, e mesmo em Portugal, onde tinham já dois conventos ( um em Monte-Grás, arrabalde de Santarém; de onde tratavam os frades de transferir-se para dentro d’esta villa, como de Monte Junto, nas proximidades de Alenquer, se transferiram para Monte-Grás(2), — outro em Coimbra) lembrou-se de que estes frades com a pregação e humildade que tanto os distinguia e recommendava por aqueles tempos, muito poderiam ajuda-lo a enfrear a immoralidade e excessos dos seus diocesanos; e communicando esta lembrança ao cabido, este louvou a idéa, e logo assentaram em mandar um próprio ao capitulo provincial que a ordem devia reunir proximamente naquele mesmo ano de 1237, na cidade de Burgos. Chegou a tempo o mensageiro, que foi muito bem recebido, e logo foi aberta e lida no deffinitório, a mensagem do bispo e cabido, escripta em latim. Respondeu o Deffinitório anuindo, e logo mandou para o Porto dois religiosos – fr. Gualter e fr. Domingos Galego, que foram recebidos com alvoroço. Immediatamente se lhes deu posse da egreja e cêrca prometidas, e começaram a pregar e confessar, ensinando, nas horas vagas, a doutrina cristan, em casa e pelas ruas, tratando justamente da construcção do mosteiro.

Não tardou muito que viessem outros frades unir-se àqueles dois, dando maior área à predica e doutoramento na cidade e circumvizinhanças, e ganhando grande prestigio entre o povo que corria em tropel a auxilial-os na construção do mosteiro, principalmente depois que o bispo concedeu por uma provisão, muitas graças e indulgências a quem auxilia-se e protegesse os frades.

Daremos aqui textualmente aquella provisão, por ser um documento curioso para os tempos d’hoje, e interessantissimo para a história das tormentas que em breve rebentaram:(3)

«Pedro, pola paciencia de Deos, Bispo do Porto, a todos os moradores deste nosso Bispado, assi Ecclesiasticos, como Seculares, saude, e acrecentamento em bem fazer. Sabereys que nós recolhemos nesta nossa Cidade para morarem nella, aos Frades Prégadores, com consintimento e gosto dos Conegos, e de todos os Cidadaons, tendo por certo que sua companhia há necessaria, e há-de ser de proveito temporal, e espiritual para todos os moradores da cidade e Bispado. Pela qual rezão, visto como os Religiosos não possuem nenhuma cousa de proprio, nem podem compor sua Igreja, e fabricar as casas, de que tem necessidade, sem vossa e minha ajuda, rogamos-vos a todos, e em remissão de nossos peccados, vos encarregamos, que mostreis com elles facilidade, e devoção, assi em os ajudar a cortar, e ajuntar a madeyra, como no carreto da pedra necessaria para a obra, conforme aquillo: Pera si edifica, quem a Deos faz casa. E por tanto confiando nós plenissimamente na misericordia de deos a todos aquelles que fielmente lhes acudirem no colher da madeyra, e carregar da pedra: ou lhes derem por si, ou por outrem, hum dia de trabalho na obra, concedemos quarenta dias de perdão das penitencias que lhe forem impostas. Dada no Porto a 6 de Março da era de 1276 (1238 de Cristo) Valha por tempo de dois annos

Todos se apressaram a auxiliar os frades, e o próprio prelado lhes deu para alargamento da fábrica uns chãos contíguos, que eram propriedade sua, mas (diz a chrónica) «ou fosse que o clero entrasse em ciumes das grossas esmolas que corrião ao convento, e julgasse de algumas que começaram a entrar por enterros, benesses e legados de testamentos (como na cidade ao tempo ainda havia apenas uma freguesia – a da Sé) que tudo o que hia para os frades, era como água furtada à herdade dos crerigos, ou fosse inveja … ou tudo junto» bispo e cabido, reconsiderando, embargaram as obras, e por um notário apostólico, o prelado os mandou intimar para que não mais pregassem missa, nem outro qualquer offício divino.

Ficaram os bons frades solenemente perplexos e de braços cruzados, mas o povo pronunciou-se por elles e correu com mais fervor a tratar da obra, como coisa sua, o que o prelado obviou de pronto, fulminando com censuras todos os que dessem favor, ajuda ou conselho para continuação das obras !!…

Instaram com o bispo e cabido, várias pessoas das mais autorizadas do Porto, para que não hostilizassem os frades; secundaram o mesmo pedido a Santa Rainha D. Mafalda, tia d’el-rei, ao tempo D. Sancho II, e o arcebispo de Braga D. Silvestre, mas nada conseguiram. Declararam os cónegos insanavelmente nulas várias doações feitas por particulares ao convento, de bens foreiros ao cabido, e rescindiram escrituras de vendas de terrenos feitas por eles aos frades.

Em tão grande aperto, dirigiram-se estes ao romano pontífice, então Gregório IX, que proveu logo no caso, com um breve que dirigiu ao arcebispo de Braga, para que este fizesse saber ao bispo e cabido do Porto, que: « S. Santidade muito estranhava o seu procedimento, e lhe rogava e admoestava, com rigoroso preceito de santa obediência, que deixassem os frades em paz, e levantassem dentro de 8 dias depois de feita esta intimação, o interdicto e mais censuras fulminadas contra os benfeitores do convento, e não mais molestassem os frades, nem consentissem que alguém os molestasse; e que, quando o bispo e cabido recalcitrassem, dava plenos poderes a elle arcebispo, para levantar censuras impostas, sem apelação, e para, em nome da Santa Sé, reprimir qualquer nova agressão contra os ditos frades.» Dado em Anagnia aos 24 de Setembro de 1238.

Recebido o breve apostólico, ainda tentou o arcebispo congraçar amigavelmente com os frades o bispo e cabido, mas, o menos que estes pediam por último era: «que os frades não dessem na sua egreja sepultura geral nem particular, nem recebessem ofertas» o que visto pelo primaz, publicou o breve, e logo o bispo e cabido cederam, e não mais ousaram inquietar os frades. Por esta ocasião, já no ano de 1293, el-rei D. Sancho II, por uma provisão, se declarou: autor, fundador e padroeiro do dito Convento. Em virtude d’esta provisão e d’aquelle breve, subiu de ponto a consideração para com os frades, e as obras se desenvolveram como por encanto, povoando-se logo a casa de grande número de frades, que não cessavam de pregar e doutrinar no convento, na cidade e fora dela.

Passados 60 annos (em 13 de Setembro de 1300) confirmou D. Diniz, por provisão aquella de D. Sancho, e de novo declarou este convento do padroado real. «Pelo que mando e defendo que ninguém ouse fazer mal ou força a este Mosteiro, nem a estes frades, nem a seus homens, nem a suas agoas, nem a cousa alguma que lhe pertença. E aquele que tal fizer eu o considerarei meu inimigo, e pagará seis mil soldos, e em dobro o prejuízo causado ao Mosteiro.» Viam-se também sobre o arco da capela-mor deste mosteiro as esferas do rei D. Manuel, o que tudo prova que esta casa era do padroado real; mas não à memória de que os nossos reis lhes dessem, como deram a outros muitos, rendas ou bens alguns da coroa; apenas a rainha Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, deu ao bispo e cabido do Porto a egreja de Santa Cruz, que era do padroado desta rainha, nas margens de Leça, e isto em compensação das perdas e danos que com o estabelecimento deste mosteiro podiam sofrer o bispo e cabido, e para que não mais se repetissem querellas e agravos semelhantes. Congraçou-se lealmente o bispo com os frades, e de seu perseguidor, se converteu em benfeitor, dando-lhes avultadas esmolas, e nomeadamente, em 1245, água de herdades suas, para abastecimento do mosteiro. Deu-lhes também água, Domingos Gonçalves Ferreira; e a melhor, os frades franciscanos, pela licença concedida pelos dominicos para a conduzirem atravez da cerca destes.

Apenas terminaram as querellas movidas pelo bispo e cabido, mandaram os frades lagear a sua egreja, cravejando-a de sepulturas, que foram logo requeridas à competência, e porque já não podiam satisfazer aos requerentes, o prior do convento, D. frei Pedro Estêves, mandou levantar um grande alpendre, cobrindo o adro, que logo se encheu também de sepulturas, servindo ao mesmo tempo de recreio e praça ou casa de negócio, à imitação das grades da Sé em Sevilha. O alpendre de S. Domingos, por estar ao abrigo da chuva e sol, e por ser ponto muito central da cidade, e haver n’ella falta sensível de edifícios para repartições públicas (falta sensiviel ainda hoje, 1877) serviu muitos annos de tribunal, e ali os juizes ouviam e despachavam as partes. Sobre o vão tomado pelo alpendre, se levantou mais tarde a fachada norte e principal do convento, única parte que pôde salvar-se à voracidade das chammas que consumiram todo o vasto edifício.

N’esta fachada do convento estava montada a Caixa Filial do Banco de Portugal, e o vão restante, que era tomado pela cerca, egreja e casas dos frades e dos extinctos terceiros dominicos, tendo passado para a fazenda, com a extinção dos conventos, em 1834, foi pelo governo cedido parte para a abertura da rua Ferreira Borges, e o restante dividido em lotes, e arrematado por diversos, para edificações particulares e casas bancárias, achando-se n’esta data (maio de 1877) já feitas, n’aquelle terreno, magníficas casa sobre a rua Ferreira Borges, e sobre a nova rua de S. Domingos.

Em 1448, se instituiu na egreja deste convento, uma confraria com a invocação do Senhor Jesus, por causa da qual se suscitaram litígios impertinentes, que duraram seis annos, e que o chronista por prudencia calla, dizendo apenas que se houve por milagre, obterem os religiosos sentença favorável. Menciona, em seguida, várias curas miraculosas, attribuídas à toalha que envolvia a imagem do Senhor Jesus, patrono d’aquella confraria, e que Maria Gonçalves foi uma das felizes creaturas, no 1.º de Janeiro de 1575, pela aproximação da toalha do Senhor.

Junto à egreja d’este convento, havia uma ermida antiquíssima, para a qual se subia por uma escadaria muito íngreme e de muitos degraus, e suppõe o chronista, ser esta a egreja que o bispo D. Pedro offerecia aos frades, na mensagem que mandou ao capitulo de Lugo, e n’aquella ermida, ou egreja velha, existiu muitos annos uma confraria, que n’ella instituíram os mercadores da cidade, por contracto feito com os frades, em 1556.

Entre os religiosos d’este convento, avultaram, além dos fundadores, frei Gualter e frei Domingos Gallego – o religioso frei Domingos do Porto, natural d’esta cidade, pessoa de tanta illustração e virtude, que o papa Nicolau 3.º, o escolheu para seu penitenciário, em Roma, e no mesmo cargo o conservaram os papas Celestino 5.º e Bonifácio 8.º — e de Roma enviou, para este convento, sommas fortes, peças e alfayas ricas, sobressaindo um grande cálix dourado, com lavores e esmeraldas, e um paramento de subido preço.

Foi também capellão do summo pontifice um outro religioso deste convento, por nome fr. Álvaro do Porto. A rainha, Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, onde jaz sepultada, deixou em seu testamento, a este mosteiro de S. Domingos, uma notável relíquia (do santo lenho) declarando que fôra de Santa Helena – outra de S. Brás – duzentos morabitinos e cem medidas do melhor pão do seu celeiro de Bouças, instituindo por seu testamenteiro a fr. Gualter, um dos dois primeiros frades que se albergaram n’esta casa.

De tempo immemorial, hia todos os dias um religioso deste convento, à Sé, leccionar casos de consciência, aos clérigos e seculares, e por este trabalho, davam os bispos ao convento uma esmola perpétua; e por comissão do inquisidor-geral, hia também um frade, deste convento, visitar todos os navios estrangeiros, que ancoravam no Douro, principalmente os que vinham de terras suspeitas a heresia, para se evitar a entrada de livros ímpios.

Na egreja deste convento, tinham carneiros e sepulturas distinctas, os Pachecos Pereiras (de Bello-Monte) do Porto, e ali foram sepultadas muitas pessoas desta família.

Havia também n’esta egreja, do lado do Evangelho, um rico túmulo de mármore branco, sustentado, por quatro leões também de mármore, e neste túmulo jazia o bispo do Porto, D. frei Aleixo, que tinha sido desta ordem. Não se sabe como desappareceu esta obra d’arte. Suppõe-se que foi roubada e vendida a estrangeiros!

Este mosteiro foi em parte devorado por um incêndio, em 1777, e durante o cêrco do Porto, em 1832, outro incêndio maior, o devorou quase todo, restando pouco mais do que a fachada do Norte, alugada no 1.º de Junho de 1834, pelo Banco de Portugal, para nele estabelecer, como estabeleceu, a sua Caixa Filial; e para o mesmo fim, comprou aquela parte do edifício, quando foi pelo governo posto em praça, com vários chãos, ao longo da rua Ferreira Borges, em 1865. Fez em seguida, o Banco de Portugal, obras importantes na casa que arrematou, e por essa ocasião foi apagada uma inscrição latina, que estava na frente do edifício, e que em vulgar dizia:

ESTA ORDEM FUNDOU A EXPENSAS SUAS,EM SAGRADO ÁTRIO, ESTE EDIFÍCIO, NOTÁVELPELAS MARAVILHAS DE ARTE

Também foi apeado o emblema da ordem, que rematava e decorava a frente. Nas escavações, feitas em 1866, no sitio do convento, achou-se uma pedra, de 2m,42 de comprido, sobre 1m,32 de largura, e 0m,28 de espessura, com a inscrição seguinte:

S. DO LETTR.º FRANCISCO DE MATTOS,CIDADÃO DESTA CIDADE,E ADVOGADO DOS VINTE DA RELAÇÃO D´ELLA,E DE SUA MULHERLUIZA DE PAIVA SOARES,E DE SEUS DESCENDENTESE SUCCESSORES D´ESTA CAPELA.1660.

A fonte que estava no jardim público de S. Lázaro, pertenceu a este convento, e dele foram também as mesas de mármore que estão no museu da Biblioteca Pública.

Existiu e funcionou muitos anos, em capela e casas próprias, ao Poente deste convento, a Ordem Terceira de S. Domingos, que em consequência das grandes questões, entre ela e os frades, foi suprimida pelo romano pontífice, mas logo no mesmo ano restaurada, como Ordem da Santíssima Trindade, sem sujeição alguma aos frades; e como estes se houvessem assenhorado da sua capela, depois da restauração, passou a dita ordem, provisoriamente, para a capela próxima de S. Crispim, na Biquinha, e dalli para a capela da Batalha, donde passaram para a capelinha do Senhor Jesus do Calvário Novo, na Cordoaria, e dali para o largo do Laranjal, onde levantaram a majestosa fábrica que ali se vê, e que deu à velha praça do Laranjal, o nome que hoje tem – Praça da Trindade.

Dr. Pedro Augusto Ferreira: abdade de Miragaia

in «Portugal, antigo e moderno», Vol. 7º, Lisboa, 1877;

 

Notas do autor:

(1)Chronica de S. Domingos por Fr. Luíz Cacegas, correcta e aumentada por Fr. Luíz de Sousa, 1.ª parte, liv. 3.º, pág. 283 e seguintes.)

(2) Vide Monte-Junto, a pag. 478, col. 2ª in fine, do 5º vol.

(3) Aquella provisão foi publicada em latim, mas nós a damos em vulgar, como a traduziu Fr. Luiz de Sousa….Chronica citada, pag.289

 

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