A Ordem de S. Domingos em Portugal (parte IV)

III Restauração
“As portas do Inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt. XVI, 18).Foi o esquecimento destas palavras de Jesus que levou ao desvario e ao fracasso todos os perseguidores da Igreja. Mas no caso da extinção das Ordens Religiosas em Portugal o facto foi mais cínico e, por isso mesmo, de maior ridículo.
O ministro Joaquim António de Aguiar, no “Relatório” que serviu de base ao decreto da extinção, pretendeu fundar-se no Evangelho, na Teologia e na História da Igreja para o começar pomposamente desta maneira: “SENHOR: Está hoje extinto o prejuízo, que durou séculos, de que a existência das Ordens Religiosas é indispensável à Religião Católica e útil ao Estado e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século e com a organização política que convém aos povos”.
“Jesus Cristo não as criou e os Apóstolos desconheceram-nas…”. E o mísero documento, de fazer rir uma pedra se não fossem as suas trágicas consequências, continuou no mesmo estilo e arrozoado até ao fim.
Mas a Igreja tomou de Joaquim António de Aguiar as três vinganças com que responde a todos os seus inimigos: perdoa-lhes, reza por eles e sobrevive-lhes.É marcando este testemunho de sobrevivência que neste número de “ROSÁRIO DE MARIA” celebramos os 25 anos da Restauração da Província Dominicana em Portugal.
Desde a extinção dos Institutos Religiosos em Portugal que a Ordem de S. Domingos estava representada apenas pela comunidade dos religiosos irlandeses do Corpo Santo em Lisboa.
Mantinham os frades do Corpo Santo as fraternidades da Ordem Terceira de S. Domingos e as Confrarias próprias da Ordem a par de uma extraordinária actividade apostólica, principalmente através da imprensa católica.
O espéctaculo de perseguição a que estes dominicanos irlandeses assistiram em Portugal tinham-no experimentado os seus antepassados mais cruel ainda no tempo do apóstata e criminosos Henrique VIII e sucessores imediatos.
Foi fugindo à perseguição e num esforço e esperança de sobrevivência que os dominicanos irlandeses chegaram a Portugal por 1600 e bateram às portas dos dominicanos tendo sido bem acolhidos.
Quando quiseram reunir-se em comunidade e fundar casa própria, foi o Convento de S. Domingos de Benfica quem lhes deu um terreno em Loures onde abriram a primeira residência. Após várias mudanças e vicissitudes, instalaram-se definitivamente no Corpo Santo.
Foi um religioso do Corpo Santo, o Revº P. Fr. Hikey que por 1893 convidou o jovem sacerdote P. Manuel Frutuoso, já terceiro dominicano, a fazer-se religioso para restaurar a Ordem de S. Domingos. O P. Manuel Rosa Frutuoso foi orar a Lisboa junto do túmulo de Fr. Luís de Granada e resolveu abraçar a Ordem. Em 18 de Outubro de 1893 vestiu o hábito dominicano adoptando o nome religioso de Domingos. Havia sessenta anos que um português não vestia o hábito branco de Domingos de Gusmão.
Só em 1897, porém, regressou a Portugal Fr. Domingos Maria Frutuoso mas completamente sozinho. Até o seu caríssimo P. Hikey que a Rainha D. Amélia escolhera para mestre dos Príncipes havia morrido quase repentinamente em Benfica onde fora confessar. O P. Frutuoso, herdeiro do zelo do P. Hikey, por vontade da Rainha, sucedeu-lhe no trabalho de preceptor dos Príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel.
Em 1908, com um religioso espanhol que o viera ajudar, abriu uma Escola Apostólica em Viana do castelo. Mas em breve a proclamação da República extinguiria aquela aurora de esperança e os seus fundadores tiveram mesmo de tomar o caminho do exílio. Entretanto mais dois sacerdotes seculares tomaram o hábito de S. Domingos para a restauração da Província de Portugal: O P. Fr. Bernardo Lopes, me La Quércia (1909) e o P. Fr. José Lourenço, no Saulchoir (1911).
Fr. Domingos Maria Frutuoso pôde regressar a Portugal em 1913, mas só ajudado dos outros religiosos, Fr. Bernardo Lopes e fr. José Lourenço, vindos para a Pátria em 1915 e 1916 respectivamente, se pôde dedicar à formação de novas vocações.
Os estudantes eram enviados a cursar os estudos em La Mejorada (Espanha , até que em 1923 puderam ir para Saint Maxim (França).
Em 1920 foi Fr. Frutuoso sagrado Bispo de Portalegre.
Os outros religiosos ficaram sós, se poderem fazer vida de comunidade e levando uma existência sacrificadíssima para poderem angariar esmolas para os estudantes que estavam em Espanha e em França.
O Mestre Geral da Ordem Revmº P. Theissling, sabendo como aos dois únicos religiosos lhes era impossível viver em comunidade, escreveu-lhes em 1923 com intenção de os anexar a eles e aos estudantes portugueses à província de Toulouse, com destino ao Brasil. Era uma solução de morte.
D. Fr. Domingos Frutuoso escreveu então ao Mestre Geral uma carta veementíssima e dolorosíssima, advogando a continuação dos Padres e dos estudantes para a Restauração da Província de Portugal e colocando à disposição dos estudantes os Seminários da sua Diocese de Portalegre.
Raul de Almeida Rolo OP.
NOTA FINAL Entretanto em 1927, como se dirá noutros artigos, mais adiante, abriu-se no Luso um Seminário ou Escola Apostólica, onde trabalharam com o PP. Portugueses, alguns religiosos da Província de Toulouse (França) enviados pelo então Mestre Geral, P. Fr. Boaventura Garcia de Paredes:P. Fr. Pio Maria Jougla, vigário do Geral, que trazia consigo os PP. FF. Francisco Cazes, Vicente Moreira e Henrique Abadie, que regressaram a França no fim de vários anos.
O Seminário ou Escola Apostólica passou para Mogofores em 1932, onde funcionou até 1938; com a ida dos religiosos para o Porto, ficou suspensa, vindo a reabrir em aldeia Noiva (Olival) em 1943 o que permitiu aumentar, pouco a pouco, o número de Noviços e Estudantes que iam formar-se ao estrangeiro, e aumentar, embora lentamente também o número de Sacerdotes.
Em 1947 foi possível abrir o Colégio Clenardo para a formação da juventude de Lisboa e não só. Para enfrentar melhor a dificuldades o Rev.mº P. Mestre Geral, Fr. Manuel Saurez, enviou, da Província do Canadá, três religiosos aos quais se juntaram mais seis. Vieram ainda colaborar na Restauração da Província de Portugal religiosos das Província Dominicanas de Espanha, França, Lombardia, Austria, Bomémia, Dalmácia, Lião, Bélgica, Califórnia e Brasil.
Em 11 de Março de 1962 foi restaurada canonicamente a Província Dominicana de Portugal, que pôde iniciar a actividade missionária em Moçambique no ano de 1972 (Casa de Santa Maria – Nampula – fechada após o 25 de abril) e em 1982, em Angola, Wako-Kngo, região de Kuanza-Sul onde trabalham zelosamente três religiosos.
A Direcção

in revista “Rosário de Maria”, Setembro/Outubro de 1987, nº 446, Ano XLII, Director: Fr. Luis Cerdeira OP; Propriedade, Redacção e Administração: Secretariado Nacional do Rosário, Fátima. Composição e impressão: Indugráfica, Fátima;

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: