A Ordem de S. Domingos em Portugal (parte III)

II – Em Terras de Missão
A Ordem Dominicana nasceu do ideal de cruzado que Domingos de Gusmão escondia na alma.
O próprio S. Domingos queria passar-se a terras de Cumanos, pedindo para isso dispensa do governo supremo da Ordem e deixando crescer a barba. Ele não chegou a ir a essas missões, embora arriscasse vida quotidianamente entre hereges, mas lançou a semente o espírito missionário no coração de seus filhos.
As Províncias do Sul da Europa tinham logo nas suas fronteiras o mundo muçulmano.
O segundo Provincial da Ordem em terras da Península Ibérica, S. Frei Gil de Santarém, mandou religiosos a trabalhar na conversão dos Muçulmanos. A Ordem Dominicana, porém, tinha um método apostólico característico: o apostolado doutrinal. Também entre mouros devia o missionário saber ler e estudar os seus livros, conhecer e refutar os seus erros para maior eficácia do seu labor apostólico. Por isso, manda S. Fr. Gil no Capítulo Provincial de Palência, em 1249, que se dediquem ao estudo do Árabe Fr. Arnal de Guárdia, Fr. Pedro de Cadireta, Fr. Pedro Árias, Fr. Pedro do Poço, Fr. Pedro de S. Félix, Fr. Diogo Stefani, Fr. Pedro de Canelas e o célebre Fr. Raymundo Martini.
Bom indício foi este da gigantesca obra missionária que os dominicanos da Península haviam de exercer no mundo inteiro: os Espanhóis no hemisfério americano, os Portugueses no hemisfério afro-asiático. Com o Tratado de Tordesilhas ficou meio mundo confiado ao zelo apostólico dos dominicanos da Província de Portugal, pois lhes pertencia o território de todo o Reino e seus domínios.
1 – África
– Varridos os Mouros do solo português e dificultando o trabalho dos missionários portugueses em terras da Península, como consequência das guerras da independência, foram os dominicanos lusos fazer cristandade no além-mar, logo que Portugal começou a grande gesta ultramarina.
Na conquista de Ceuta, ao lado da “Ínclita Geração” entraram nas muralhas da cidade os frades de S. Domingos.
De Ceuta passaram os dominicanos a Tânger, onde instituíram convento em 1546. Cada frota que partia para a descoberta do mar era uma nova leva de hábitos brancos de S. Domingos que largava do Tejo. As regiões da Guiné e os Reinos de Gabão e do Congo ouviram a pregação do Evangelho. O Rei do Congo foi convertido à fé cristã e o seu sobrinho, D. Afonso Preto, recebia lições no Convento de s. Domingos de Lisboa por 1533.
A igreja de S. Domingos de Lisboa era o centro religioso dos indígenas chegados das terras descobertas. No ano da morte do próprio Infante D. Henrique, 1460, se organizou nela a celebérrima Irmandade de Nossa Senhora do rosário dos Homens Pretos.
2 – Oriente
A grande empresa missionária acompanhou sempre a magnífica epopeia das descobertas e da civilização levado ao mundo por Portugal. Mas sobretudo o Oriente, o Oriente lendário e encantado, o Oriente dos Cristãos de S. Tomé e das riquezas fabulosas é que havia de ser o campo de glória e de martírio dos dominicanos portugueses.
3 – Índia
– Já em 1503 se encontravam os dominicanos em Cochim com o grande Afonso de Albuquerque, e ali fundaram convento em 1549. Deste modo, trinta e nove anos antes de chegar à Índia S. Francisco Xavier, já os missionários dominicanos por lá faziam cristandade. Continuaram a acompanhar as armadas e fundaram a Congregação de Santa Cruz das Índias, em 1548.
O convento principal era o de S. Domingos de Goa (1548), destinado a noviciado e Casa de Estudos. Crescendo rapidamente o número de estudantes tornou-se insuficiente o convento de S. Domingos para servir juntamente de Casa de Estudos e Noviciado. Por isso se abriu em Pamgim, em 1584, o colégio de S. Tomás que atingiu o brilho a que já nos referimos.
É impossível seguir aqui em pormenor a erecção dos conventos e dezenas de casas criadas nestas misssões. A expansão missionária dos filhos de S. Domingos no Oriente conta-se pelos Reinos a que iam estendendo a sua acção apostólica.
Em Chaul abriram casa em 1549; chegaram ao Reino de Malaca em 1554 e daí passaram logo ao Camboja; em 1556 entraram na China, sendo o principal missionário Fr. Gaspar da Cruz, o célebre autor do Tratado das Coisas da China e de Ormuz; Timor é começado a cristianizar neste mesmo ano de 1556.
Timor, cujo primeiro apóstolo foi Fr. António Taveiro é justamente considerado a jóia das missões portuguesas no Oriente. Em nenhuma parte penetraram tão fundo os missionários na alma e coração das gentes. A própria Rainha de Mena e o herdeiro, Príncipe D. Pedro, receberam o baptismo. O mesmo fizeram o Rei de Manunhão e a Rainha de Lifão. Estas missões marcaram o zénite do seu esplendor nos meados do século XVII e fo a grande alma de missionário Fr. António de S. Jacinto que a todos comunicou entusiasmo e zelo. Em 1559 já havia casa em Damão, elevada a convento em 1592. Em Maim e Trapor abriram-se casas antes de 1579.
De Malaca passaram os dominicanos em 1561 às ilhas de Solor, Sica e Ende. Em Beçaim, onde já missionavam desde 1535, fundaram o convento de S. Gonçalo em 1563, do qual dependiam as vicarias de Caran, Maim e Trapor.
Em 1566 entraram no Reino de Sião, onde sofreu o martírio Fr. Jerónimo da Cruz. Mangador recebeu os dominicanos em 1567, foram baptizados mais de cinquenta mil índios, exaltando a alma missionária com tal entusiasmo que o Capítulo Geral, celebrado em Roma em 1571, juntou essa carta às suas Actas.
O século XVII começou auspiciosamente pela fundação, no ano de 1603, da casa de Meliapor, lugar do Martírio do Apóstolo S. Tomé, segundo reza a tradição. Nesse mesmo ano, fundaram convento em Bengala, em 1604 no Pegu, seguindo-se as fundações de Negapatão, Tana (1605), Colombo (1605), Gale, Jafanapatão, Caranja (1623), Japara, Maçapar, etc., etc.
4 – Semente de Cristãos
– Não faltaram em abundância o testemunho e o sinal das grandes sementeiras da fé: o martírio. Bastará os nomes de alguns para conhecermos o heroísmo extremo com que os dominicanos levaram e pregaram a fé até aos confins do mundo.
Nas ilhas de Solor foram martirizados pela fé os religiosos Fr. Diogo da Assunção, Fr. Álvaro da Costa, Fr. Jerónimo de Mascarenhas, Fr. Simão da Madre de Deus, Fr. Manuel Laborão, Fr. Gaspar Dessa, Fr. António de S. Domingos, Fr. Luís da Paixão, Fr. João Baptista e o Irmão cooperador Fr. Belchior.
No Reino de Sião foram três os que selaram a fé com o seu sangue contando-se entre eles o celebrado Fr. Jerónimo da Cruz.
Em Timor, onde a acção dos dominicanos foi mais profunda, deram testemunho sangrento da fé que pregavam Fr. Duarte Travassos e Fr. Gaspar Evangelista.
Alguns destes martírios foram justamente celebrados, organizando-se mesmo o processo informativo em vista à canonização de Fr. João Baptista e Fr. Simão da Madre de Deus, aos quais foram decepados todos os membros e, finalmente, arrancados os fígados, guisados e comidos por renegados daquela fé que os mártires lhes haviam pregado. A par do testemunho de sangue não faltou o testemunho da vida santa. Foi grande a fama de santidade que deixaram por aquelas paragens do extremo Oriente Fr. António da Cruz, Fr. Rafael da Veiga, Fr. João da Costa, Fr. Belchior Dantas, Fr. Simão das Chagas, assim como o Irmão cooperador Fr. Aleixo.
5- África Oriental
– A Congregação de Santa Cruz das Índias não confinava a sua acção missionária aos continentes asiático e australiano; orientava toda a actividade missionária dos dominicanos portugueses em terras de missão, quer se desenvolvesse na Ásia, na Oceania ou na África.
Em 1563 já o Rei D. Sebastião doava a igreja de Santiago Maior, em Tete, aos frades de S. Domingos. O convento da ilha de Moçambique é formalmente erecto em 1579. Neste mesmo ano passaram os missionários a Madagáscar. Pelo tempo fora estabeleceram centros de irradiação missionária em Qurimba e Amissa (1622) e ainda outros, indo para o sul até à foz do rio Zambezes, estabelecendo bases de missão em Sofala (1586), Manica, Sena e Tete, orientando destas os centros de missão, que D. António Barroso afirma serem “sem número” depois de meados do século XVII.
O crescimento das cristandades das Índias e da África Oriental, levaram o Bispo de Malaca, em 1585, a pedir com instância ao Provincial, Fr. Jerónimo Correia, que mandasse mais missionários. Fez o provincial um levantamento geral na Província e uma grande leva de dominicanos partiu voluntaria e alegremente para as missões. Entre eles foi o célebre autor de Etiópia Oriental, Fr. João dos Santos, que ficou em Sofala, juntando o seu zelo ao dos outros missionários que já ali anunciavam o Evangelho.
Com frequência conseguiram os filhos de S. Domingos, por especial benção de Deus, converter os Reis e Príncipes das terras que evangelizavam. Em nenhuma outra missão, porém, este facto se verificou tão espectacularmente como no Império de Monomotapa, na África oriental. Por meio de Fr. Luís do Espírito Santo recebu a graça da conversão Mavura, tio do Imperador, que ao baptizar-se tomou o nome de Filipe.
O facto enfureceu o Imperador e levou-o a mover guerra aos portugueses. Mas, vencido, sucedeu-lhe D. Filipe.
Teve este acontecimento particular influência na difusão do Evangelho naquelas terras. O filho do Imperador foi também baptizado e o seu sucessor aceitou igualmente a fé, graças ao selo de Fr. Aleixo do Rosário, e se fez baptizar com a sua mulher e filhos, em dia de S. Domingos, 4 de Agosto de 1652. O acontecimento foi celebrado festivamente em Lisboa em em Roma.
O príncipe D. Miguel aceitou e desenvolveu em sua alma todas as riquezas da fé que recebera e pediu para se consagrar totalmente a Deus na Ordem de S. Domingos. Foi aceite, preparou-se e recebeu o sacerdócio. O Mestre Geral Fr. Tomás Rocaberti, por 1670, concedeu-lhe o título de Mestre em Teologia, suprema distinção académica na Ordem de S. Domingos.
Este invulgar florescimento das missões do Monomotapa deve-se ao martírio de Fr. Luís do Espírito Santo e Fr. João da Trindade, preço por que vieram a pagar a conversão de Mavura.
A esses mártires podemos juntar Fr. Manuel Sardinha, Fr. Aleixo dos Mártires e muitos mais que noutras épocas e em diversas circunstâncias deram, pelo próprio sangue, testemunho da sua pregação.
Os sulcos cavados no solo africano pela acção missionária dos dominicanos durante mais de dois séculos e meio consecutivos foram tão profundos que os seus vestígios se conservam ainda hoje. Estão, porém, tão esbatidas pela acção corrosiva do tempo as vivas imagens de antanho que se impõe a sua restauração.
6 – Declínio
– As missões também se ressentiram no século XVII da crise religiosa da Província de Portugal. Essa crise foi agravada ainda mais no campo missionário pela perseguição dos corsários holnadeses que, sob o governos dos Reis de Espanha, invadiram grande parte das terras portuguesas do ultramar.
Os séculos XVIII e XIX já não conseguiram recuperar mais o espelndor do passado. Em 1814 o Arcebispo de Goa, por autoridade apostólica, sem intervenção nem do Provincial de Portugal, nem do próprio Mestre Geral da Ordem, separou a Congregação de Santa Cruz das Índias da Província de Portugal e, dando-lhe um Vigário próprio, sujeitou-a directamente ao Mestre Geral da Ordem. Foi um golpe mortal na Congregação que, sem noviços indígenas, deixou também de receber, de todo, auxílio missionário enviado da Metrópole.
O último Capítulo da Congregação fez-se em Goa em 1831 e nele ainda se nomearam vigários para os três conventos de Goa: S. Domingos, S. Tomás de Pangim e Santa Bárbara, assim como para os conventos de Dio, Meliapor e Malaca. Foi também nomeado um vigário para as missões de Samatra, Java, Bornéu e Flores e outro para as missões ainda existentes em Moçambique. Mas a gigantesca obra das missões dominicanas no oriente estava moribunda.
Morreu também com a Província na altura da publicação e execução da Lei da iniqua Extinção das Ordens Religiosas do ministro Joaquim António de Aguiar, em 1834.

in revista “Rosário de Maria”, Setembro/Outubro de 1987, nº 446, Ano XLII, Director: Fr. Luis Cerdeira OP; Propriedade, Redacção e Administração: Secretariado Nacional do Rosário, Fátima. Composição e impressão: Indugráfica, Fátima;

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