A Ordem de S. Domingos em Portugal (parte II

6 – Ordem da Verdade

– Fundada para combater a heresia teve a Ordem Dominicana sempre no maior apreço o estudo das ciências sagradas. Em portugal começaram em breve os conventos da Ordem a ser centros de estudo das letras. Já em 1250 aparecem como casas de estudo os conventos de Lisboa, Coimbra e Santarém. Em 1299 mecionam as Actas do Capítulo provincial, além daqueles centros, mais os conventos do Porto, Évora, Elvas e Guimarães. Cedo também começaram os dominicanos portugueses a ensinar nos grandes centros universitários europeus. Para Oxford foi em 1376 Fr. Vicente de Lisboa, em 1431 Fr. Lourenço do Algarve , na embaixada de “eminentíssimos teólogos” enviados por Carlos V, em 1555, áquela universidade para a expurgar do Protestantismo, estava o grande Fr. Luís de Soto Mayor que também regeu cátedras em Lovaina, Cambridge e Alcalá. Em Paris ensinaram Fr. Gaspar dos Reis e Fr. Jorge de Santiago, brilhantes teólogos do Concílio de Trento. Para Tolosa foi Fr. Pedro das Areias em 1426. Também em 1426 Fr. João de Freitas, Fr. Gomes Martins de Santarém, Fr. Velasco do Lago, Fr. Martinho Vasques, Fr. Pedro do Campo e Fr. Pedro Barbuda foram ensinar para Valhadolid, onde já se encontravam Fr. João Manso e Fr. Gil de Lisboa. Em 1431 seguiram também para esta universidade como professores Fr. João Dantas e muitos mais pelo tempo fora. Em Lovaina tiveram os dominicanos portugueses briosa representação no século XVI. Os mais insígnes, porém, foram o Padre Mestre Fr. António de Sena aquem confiaram a reitoria dos Estudos Gerais e Fr. Luís de Soto Mayor a quem já nos referimos.

Na Universidade Portuguesa exerceram também poderosoa acção, sendo professor em Lisboa, já em 1426, Fr. gomes Martins. a tradição da Ordem nesta Universidade não mais se perdeu. Mas o grande século intelectual da Ordem Dominicana em Portugal foi ainda o século XVI. O Colégio S. Tomás, fundado por D. Manuel em 1517, tornou-se um alfobre de grandes mestres. Tendo acompanhado a Universidade para Coimbra, foi o primeiro dos Colégios Universitários da Atenas Portuguesa e não, certamente, apenas pela cronologia.
Os seus Mestres assumiram as mais altas funções na Universidade e ilustraram as primeiras cátedras dela. Na Cátedra de Prima de Teologia ensinaram Fr. Martinho de Ledesma, Fr. André de S. Tomás, Fr. António de S. Domingos, Fr. António da Fonseca, Fr. António da Ressureição, Fr. Diogo Artur, Fr. Vicente Pereira, Fr. José Ferrer e outros. Na Cátedra de Vésperas de Teologia ensinaram Fr. Diogo de Morais, Fr. Pedro Mártir, Fr. Valério de Moura e Fr. João Pinheiro que foi Vice-Reitor da Universidade e morreu em Roma, a caminho do Concílio de Trento, para onde se dirigia como teólogo.
Na ciência divina da Sagrada Escritura abrilhantaram as cátedras de Coimbra Fr. João Pedraça, Fr. João Aranha, Fr. Jorge Pinheiro e o sobre todos grande, Fr. Luós de Soto Mayor.

Os Estudos Gerais de S. Domingos de Lisboa e do Mosteiro da Batalha (este ainda de erecção recente) elevaram-se a tão alto nível que o Cápítulo Geral de 1551 lhes concedeu a categoria universitária para efeitos académicos.

Também nos meados do século XVI foram elevados à categoria de Gerais os Estudos estabelecidos no Convento de S. Domingos de Évora.
No grande areópago da ciência divina, que transcendeu todas as instituições culturais e universitárias – O Concílio de Trento – foram luzeiros de primeirissíma grandeza não só sábio, zeloso e santo Arcebispo de Braga D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, mas também os teólogos F. Jerónimo de Azambuja – simultanâneamente embaixador de D. joão III – Fr. Gaspar dos Reis, Fr. jorge de S. tiago – futuro Bispo d eAngra – Fr. Henrique de Távora, Fr. Luís de Soto Mayor e o grande Fr. Francisco Foreiro, alma do Catecismo do Concílio, emérito Secretário das Comissões do Ìndice e da Reforma do breviário e missal romanos, assim como mestre de Teologia e Oratória do zeloso Cardeal S. Carlos Borromeu.
Mas os tempos rodaram e a decadência geral da Igreja e das Instituições Religiosas activada pela hostilidade e perseguição, fez desaparecer quase tudo. Por 1778 estavam extintos os Estudos do convento de S. Domingos de Lisboa “por falta de estudantes”. Reabertos estes Estudos em 1779 pelo Provincial Fr. José Rocha, com apenas seis teólogos e sete filósofos, arrastaram-se penosamente pelos cinquenta anos que lhes concederam de vida, vindo a morrer definitivamente por asfixia, como consequência do Decreto de 23 de Março de 1821, que proibiu por completo a admissão de noviços, fonte normal do abastecimento dos Estudos. Já nesta data de 1821, contando todos os estudantes dispersos pelos conventos dominicanos de Coimbra, Elvas, Évora e Lisboa, não se contaram mais de vinte e seis escolares, e, no entanto, ainda resisitram, numa titânica luta de sobrevivênvia, durante mais de dez anos, até que em 1831 se extinguiram de todo.
No entanto, dentro do condicionalismo dos tempos, os dominicanos portugueses estiveram sempre em relevo no campo das letras sagradas. Os últimos lampejos do Colégio Universitário de S. Tomás de Coimbra tiveram uma alta representação no Mestre Fr. José Ferrer, lente da cátedra de Prima de Teologia e em Fr. António José da Rocha, ilustre professor e orador sagrado que Coimbra inteira corria a ouvir e a quem se deve o celebérrimo panegírico feito em 1822, nas soleníssimas exéquias que a mocidade académica fez celebrar em sufrágio da alma do Bispo Conde D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, que fora Reformador e Reitor da Universidade.
No Oritente a actividade missionária e cultural dos dominicanos esteve sempre em estreita dependência da situação religiosa da metrópole. Por isso também no século XVI levaram lá longe os dominicanos portugueses os fulgores da cultura cristã e das ciências divinas, estabelecendo Estudos no convento de S. Domingos de Goa ampliados depois no Colégio de S. Tomás de Panguim, elevado pelos Reis de Portugal à categoria de Universidade e onde a frequência de alunos dominicanos ultrapassava habitualmente quinhentos estudantes.
7 – Conservação e declínio

– O século XVII foi de expansão e conservação das actividades missionárias e, como para toda a Igreja, já também de prenúncios de decadência. A união do Reino à coroa de Espanha foi altamente desfavorável aos dominicanos portugueses por estes na maior parte, serem partidários de Rei Português. Em 1640, com a Restauração portuguesa, a Ordem ainda floresceu, aparecendo figuras eminentes na Teologia como Fr. Domingos de S. Tomás e Fr. Pedro Magalhães, mas a época já não era de glória para ninguém. O século XVIII não conseguiu mais as glórias dos séculos passados porque a decadência era geral e o ambiente social, com o regalismo político, começava a tornar-se hostil. Sinal desta situação é o facto do novo convento de Nossa Senhora das Neves, em Montejunto (1721) ficar, desde a sua fundação, sujeito à jurisdição directo do Mestre Geral da Ordem. O convento de S. Martinho de Manselos (1721) é testemunho da penúria económica do convento de S. Gonçalo de Amarante, pois foi anexado a este para o ajudar com os rendimentos dos seus bens.

Com o convento de Manselos terminou a expansão da Ordem de S. domingos em Portugal. Eram ao todo vinte e seis conventos.
No campo das letras são os estilistas e historiadores que representam a Ordem, principalmente Fr. Lucas de Santa Catarina, Fr. Pedro Monteiro e Fr. Fernando de Abreu, membros da Academia Real da História Portuguesa, embora ficassem todos muito áquem do inigualável autor e primoroso estilista que foi Fr. Luís de Sousa.

in revista “Rosário de Maria”, Setembro/Outubro de 1987, nº 446, Ano XLII, Director: Fr. Luis Cerdeira OP; Propriedade, Redacção e Administração: Secretariado Nacional do Rosário, Fátima. Composição e impressão: Indugráfica, Fátima;

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Uma resposta

  1. O nome é Mancelos e não Manselos.

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