A Ordem de S. Domingos em Portugal (parte I)

I – Na Europa

1 – Origem e primeiros tempos

Honra-se a província de Portugal de ter por seu primeiro religioso um companheiro do próprio S. Domingos, Fr. Soeiro Gomes. Não se conhece como esse português se encontrou, logo de início, no Sul da França, com o grande fundador da Ordem dos Pregadores. Mas o que não oferece dúvida é que Fr. Soeiro estava entre os dezasseis religiosos da primeira dispersão em 1217. Fr. Soeiro chefiou o grupo de religiosos que veio para a Península Ibérica e logo tratou de estabelecer a nova Ordem na sua pátria. No mesmo ano de 1217 já estava em Portugal como Provincial de toda a Espanha, fundando o primeiro núcleo da Ordem em Montejunto, perto de Santarém. O sítio era inóspito e afastado dos lugares a evangelizar. A Ordem em que Fr. Soeiro professara era diferente de todas as antigas. Era uma Ordem de apóstolos e, por isso, , mudou em breve o convento para a então vila de Santarém. Numerosos documentos da época apresentam-nos Fr. Soeiro como um personagem ilustre e clérigo virtuoso, sábio e exprimentado. Os próprios Obituários do tempo deram-lhe lugar ao lado dos grandes e dos Reis, cuja morte era consignada nesses livros. A importância de Fr. Soeiro e mesmo a sua fama de santidade foram superadas pelas do Beato Fr. Gil de Santarém, mais conhecido por S. Fr. Gil. O valor pessoal e a santidade destes varões ilustres e dos primeiros dominicanos portugueses explicam a magnifíca aceitação que a Ordem de S. Domingos teve em Portugal. Em breve cresceram os conventos, apesar de algumas grandes incompreensões e dificuldades. Ainda no século XIII se construíram os conventos de S. Domingos de Santarém (1238), S. Domingos de Coimbra (1227), S. Domingos do Porto (1238), S. Domingos de Lisboa (1241), Nossa Senhora dos Mártires de Elvas (1267), Nossa Senhora das Neves de Guimarães (1270) e S. Domingos de Évora (1286).

2 – A grande crise
– O Grande Cisma do Ocidente, com o seu extenso rosário de calamidades e misérias teve as suas repercussões também nas Ordens Religiosas. A cisão dos Reinos divididos entre os dois Papas levo à cisão das Ordens Religiosas que geralmente prestaram obediência ao Papa reconhecido pelos respectivos monarcas. Portugal seguiu o partido do Papa de Roma e, por isso, os conventos do Reino, apesar de pertencerem à Província de Espanha, (cujo Reino rendia obediência ao Papa de Avinhão), começaram a governar-se por Vigário Geral próprio, nomeado pelo Beato Raimundo de Cápua. As guerras entre os Reinos de Portugal e de Castela também concorreram para que esta separação fosse cada vez mais profunda.

3 – Congregação da observância
– O Beato Raimundo de Cápua, Mestre Geral da Ordem de S. Domingos sob a obediência do Papa legítimo, deplorava a desordem que por toda a parte reinava nas instituições da Igreja de tal modo que o clima não era favorável aos religiosos que queriam ser observantes. O Beato Raimundo apresentou o problema ao Papa, em carta de 1 de Dezembro de 1390, expondo nela a feliz experiência que fizera na Prússia, colocando Fr. Conrado à frente de um punhado de religiosos fiéis cumpridores das leis e obrigações do Estado Religioso. Logo no mês seguinte, a 9 de Janeiro de 1391, o Papa Bonifácio IX expediu uma bula apoiando o pedido do Beato Raimundo e ordenando que em cada Província houvesse, pelo menos, um convento de rigorosa observância. Esta salutar medida foi posta em prática na Província de Portugal, em 1399, por Fr. vicente de Lisboa, religioso eminente em virtude, paciência e saber, o qual obteve de D. João I o palácio de Benfica para primeiro convento reformado. Os conventos de Castela, a que juridicamente ainda estavam unidos os de Portugal, não participaram deste benefício, porque obedeciam aos Papas de Avinhão. Só mais tarde, e já unificada a Cristandade, recebeu a Província de Espanha as vantagens da Observância e estas levadas por religiosos da Província de Portugal. Fr. João de Neiva em 1460 e, anos mais tarde, entre 1492 e 1495, Fr. João Dias e seus companheiros foram os portadores da Observância à Província de Espanha. Não ficou esta Província a dever o benefício e, no século seguinte, dotou a de Portugal com religiosos de eminente ciência e virtude, como Fr. Jerónimo de Padilha, Fr. Cristovão Valbunea, Fr. Martinho de Ledesma, Fr. Luís de Granada e outros.

4 – “Província de Portugal”
– É este o nome legítimo da Província consagrado pelo Papa Martinho V na bula Sacrae Religionis de 5 de Fevereiro de 1418, com a qual sancionava juridicamente uma autonomia que de há muito já usavam os conventos dominicanos de Portugal e os seus religiosos. Estava fundada a Província de Portugal da Ordem de S. Domingos a quem o Papa atribuiu os territórios de todo o reino e seus domínios. Nesta altura contava Portugal com nove conventos e entre eles o celebérrimo de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha (1388). No século XV foi aumentada a Província com os conventos de Nossa Senhora da Misericódia de Aveiro (1423), nossa Senhora da Piedade de Azeitão (1435), Nossa Senhora da Luz de Predrogão Grande (1476).

5 – Era doirada
– A época mais brilhante da Ordem Dominicana em Portugal foi, sem dúvida, o século XVI, quer pela expnsão material, quer pela extraordinária acção missionária no Oriente e ainda pelo fulgor na virtude e brilho nas letras. Comprova-o o facto notável da fundação de dez concentos em território metropolitano no breve espaço de setenta anos: Nossa Senhora da Serra de Almeirim (1501), S. Domingos de Vila Real (1424), Colégio Universitário de S. Tomás de Coimbra (1539), S. Gonçalo de Amarante (1540), Nossa Senhora da Esperança de Alcáçovas (1511), Stº André de Ancede (1559), Stº António de Montemor (1559), Stª Cruz de Viana (1561), S. Sebastião de Setúbal (1563) e S. Paulo de Almada (1569).

in revista “Rosário de Maria”, Setembro/Outubro de 1987, nº 446, Ano XLII, Director: Fr. Luis Cerdeira OP; Propriedade, Redacção e Administração: Secretariado Nacional do Rosário, Fátima. Composição e impressão: Indugráfica, Fátima;

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