A Carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar e o meu apoio – (4)

por Joaquim Faria (Frei João de Oliveira Faria, OP)

 

II Alguns erros então denunciados

1º Sobre a dimensão política dos cidadãos
Da ideologia prática do Estado Novo concluía D. António que, segundo ela, “o cidadão português não precisa de ter dimensão política”. E acrescentou: – “Essa doutrina não pode a Igreja impô-la a ninguém. E temos de pôr em causa a possibilidade de chamar a possibilidade de chamar o povo à consciência da sua idoneidade para a condução da coisa comum”. Este alerta a despertar para a idoneidade do Povo teve o seu valor histórico, pois foi, talvez, o primeiro rebate dum Bispo português, pró-Democracia, a reclamar para o Povo o direito que ele tem, como adulto, de tomar em mãos os seus destinos. Não terá a nossa Democracia actual germinado a partir deste embrião?

 

2º – Sobre os Partidos Políticos
– “Não se receie pela formação de partidos”, dizia carta de D. António. E Uma Carta Vermelha? Disse depois: – “São de aprovar os Partidos que não ameaçem o bem-comum e o mínimo de união necessária para o conseguirmos, se procederem com espírito construtivo e patriótico. Dão-se bem em clima democrático. “Pluralidade na unidade”, diz Aristóteles”. – Sobre a Democracia escrevera Manuel Anselmo: – “São falsas e perigosas as ideias democráticas” (pág. 74). “Querer reabilitar agora a Democracia é trair oito séculos de independência e glória” (pág. 11). Uma Carta Vermelha? contestou dizendo: “A Igreja admite a verdadeira e sã Democracia. Anselmo contradiz Pio XII que deixou dito: – “Se o futuro está reservado à Democracia, uma parte essencial dessa realização deverá corresponder à Religião Cristã”. Benquista em vários países, carregada de promessas a bem do Povo, auspiciosa e até feliz, em muitos sectores, tem hoje em Portugal este gravíssimo contra: Amalgamou-se com o Partido Comunista. Infeliz casamento!” (pág.66). Com efeito, o Comunismo, partido único e totalitário, era já então, a negação radical da verdadeira Democracia.

 

3º – Sobre o Corporativismo de Associação, escrevera Anselmo – “A questão social há-de ser solucionada entre nós pelo Corporativismo de Associação, geradora das liberdades nacionais e da reconciliação das classes. Ora, a teorética desse Corporativismo assenta na Filosofia Tomista, o que implica necessariamente a fidelidade do Estado ao puro Cristianismo. O Estado deve instituir as associações profissionais” (pág. 21). Uma Carta Vermelha?” corrigiu distinguindo: – “A Encíclica Rerum Novarum aprova o regime corporativo ou sindical em termos de Moral geral e admite o direito corporativos mas não o dever Corporativo. Com efeito, a Encíclica preconiza não o corporativismo estatal e imposto de fora aos operários, como era então o nosso, mas o Corporativismo de auto-associação espontânea, natural e decorrente da própria natureza social do homem. Por isso escrevera D. António que “o Corporativismo português foi um meio de espoliar os operários do direito natural de associação”.

 

4º – Sobre o direito à greve D. António escrevera a Salazar: – “Aponta V. Exª entre as reivindicações de certa campanha a reclamação de ser reconhecido o direito de greve conclui terminantemente: – “Aqui nos separamos”. Depois confirmaria V. Exª que a greve é entre nós um crime”. Tenho pena porque eles estão com a doutrina da Igreja. Vem depois, Manuel Anselmo carregar ainda mais nessa tecla dizendo: – “Defender o direito à greve, perante os ensinamentos da Igreja, é um erro cultural, salvo se o ilustre antiste considera o Estado Novo uma tirania. Desafio Sua Exª Rev.ma a que me demonstre o contrário” (pág. 22). Uma Carta Vermelha? repôs assim a verdade avançada por D. António: – “Cifra-se nisto a tese do Dr. Anselmo: A Igreja só admite o direito à greve num Estado tirânico. Mas não é verdade. Dr. Anselmo desafia o Senhor Bispo a que lhe demonstre o contrário e eu desafio o Dr. Anselmo a que demonstre que as Encíclicas condenam os grevistas por lançarem mão da greve em último recurso para fazerem valer os seus direitos. Não é deles que os Papas exigem o remédio preventivo contra essa calamidade social mas sim dos Governos a quem exorta que removam a tempo as causas que lhe dão fatalmente origem; por exemplo: o trabalho muito pesado, os perigos para a saúde, os salários mesquinhos, etc. É neste ponto que a carta do Senho Bispo fere lume. O Estatuto do Trabalho Nacional condena a greve. Também a Igreja a condena quando ilegítima. Não nega porém, que ela possa, em casos extremos, tornar-se legítima quando único meio de repor a justiça.

 

Decorridos 28 anos, recordemos agora esta coisa inaudita: Para defender então a doutrina social da Igreja, assim deturpada, só um Bispo se levantou! E, para apoiar em público esse Bispo, só um padre! E este mesmo logo silenciado!!! A posteridade nos há-de julgar….

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