A Carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar e o meu apoio (1)

por Joaquim Faria (Frei João de Oliveira Faria, OP

I"Uma Carta Vermelha do Senhor bispo do Porto?"

Em Setembro de 1958 apareceu em público o livro de Manuel Anselmo Sobre a Declaração de voto de Sua Exª Rev.ma o Senhor Bispo do Porto.

Quando me veio às mãos um exemplar, li-o todo e senti revolta. E fiquei a ver quando é que me surgia uma resposta autorizada a desfazr aquele monte de erros e infâmias. Como ninguém reagia publicamente, decidi-me a publicar um opúsculo de refutação sob o título em epígrafe. Abria assim: – "Aquela carta caiu no meio português como gota de ácido em calcário. Alvoroço para uns, confusão para outros, escândalo para alguns como Manuel Anselmo. Eis os variados efeitos duma simples carta cujo o autor diz o que pensa. Este rebate insólito soou para o Dr. Anselmo como um terramoto. O Senhor Bispo já figura a seus olhos estarrecidos como o fautor conjurado da Anti-Nação. – "Venho denunciar os equívocos doutrinários e os erros políticos do Sr. Bispo do Porto" escreveu ele, julgando que um Bispo se tem de atrelar ao carro triunfal de César.Estilete a destilar fel, gárgula a vomitar a enxurrada turva do Inverno, vulcão a expelir lava rubra, de tudo isto algo há na pena acerada e incontinente do Dr. Anselmo. Chama ao Venerando Pastor "Bispo anti-situacionista", "pitonisa da Revolução", "apóstolo da colaboração partidária com os inimigos de Deus e da Pátria", "substituto do sapateiro Bandarra", "profeta da Revolta e da Desordem", etc. à sua carta chama "tenebrosa epístola", "carta vermelha", "infelicíssima carta", "carta incendiária", etc. Acusa-o de ter envenenado intencionalmente a opinião pública portuguesa, de "utilizar inverdades e erros", de "trair os seus deveres episcopais para com o Governo e os Católicos", de "querer fazer destes soldados políticos da Anti-Nação contra os próprios interesses da Igreja", de "desencadear uma campanha anti-patriótica e subversiva". Pergunta se ela "visa a derrubar o Regime, a destruir a Ordem, a instaurar o caos, a reacender ódios e paixões e a trazer, depois, às culminâncias do Poder os Comunistas", de "preconizar uma política de violências e ódios através de facções políticas apostadas na oposição a Salazar e ao seu Regime"; acusa "o carácter subversivo da sua epístola vermelha". Imaginem!
Com esta denúncia pública daquele verrinoso ataque, abria o meu opúsculo de refutação Uma Carta Vermelha do Senhor Bispo do Porto que também mostrava a intenção construtiva daquela famosa carta, com esta chamada à atenção: "- Senhores: os amigos do Estado Novo não são os turiferários apostados em endeusar os Governantes com o incenso da louvaminha, encobrindo as mazelas que vão por aí nas sub-estrtuturas do organismo. Quem as aponta com espírito construtivo não o esconjurem como elemento subversivo como Anselmo trata brutalmente um Prelado, uma intelegência, que vive a fundo a nossa actualidade nacional, podendo prestar-lhe melhor serviço com a sua crítica do que toda a caterva dos bajuladores. Não têm certos Governos no seu seio o chamado "Ministro da Oposição"? Se Portugal contasse com uma Oposição construtiva, não surgiria a Oposição revolucionária que aí vem crescendo pavorosamente. Mais vale a evolução conversiva do que a revolução subversiva. Não é por mero acaso que se está esboçando a debandada em massa por via de certo mal-estar exasperado. Diagnostiquem-lhe as causas e apontem remédios, se ainda é tempo; mas não apedrejem quem os aponta; não fechem os olhos à sangrenta realidade da chaga".

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