Convento de S. Domingos no Porto (5)

Convento de S. Domingos – Foi este convento[1] o terceiro que a Ordem fundou em Portugal, a pedido e instancias do Prelado e cabido do Porto.

Reinava em Portugal, havia 14 annos, el-rei D. Sancho II, que pela indolência e falta de critério, se deixaria dominar por validos depravados e sem pudor, que o perderam desprestigiando-o completamente, transformando a nação inteira em um theatro de injustiças, devassidões e crimes de toda a ordem. Presidia então á Sé portuense o bispo D. Pedro Salvador, que tendo conhecimento do zelo, ilustração e dedicação dos frades da Ordem de S. Domingos, dicta dos Pregadores, já então em grande numero na Hespanha, Italia e outras nações, e mesmo em Portugal, onde tinham já dois conventos (um em Monte-Grás, arrebalde de Santarém, d’onde tractavam os frades de trasnferir-se para dentro d’esta vila, como de Monte Junto, nas proximidades d’Alemquer, se transferiram para Monte-Grás,[2] - outro em Coimbra) lembrou-se de que estes frades com a pregação e humildade que tanto os distinguia e recommendava por aquelles temnpos, muito poderiam ajuda-lo a enfrear a immoraldiade e excessos dos seus diocesanos; e communicando esta lembrança ao cabido, este louvou a idéa, e logo assentaram em mandar um próprio ao capitulo provincial que a ordem devia reunir proximamente n’aquelle mesmo ano de 1237, na cidade de Burgos. Chegou a tempo o mensageiro, que foi muito bem recebido, e logo foi aberta e lida no deffinitorio, a mensagem do bispo e cabido, escripta em latim.

Respondeu o Deffinitorio annuindo, e logo mandou para o Porto dois religiosos – fr. Gualter e fr. Domingos Gallego, que forma recebidos com alvoroço. Immeditamente se lhes deu posse da egreja e cerca promettidas, e começaram a pregar e confessar, ensinando, nas horas vagas, a doutrina christan, em casa e pelas ruas, tratando juntamente da construcção do mosteiro.

Não tardou muito que viessem outros frades unir-se áquelles dois, dando maior área à predica e doutrinamento na cidade e circumvisinhanças, e ganhando grande prestigio entre o povo que corria em tropel a auxilial-os na construcção do mosteiro, principalmente depois que o bispo concedeu por uma provisão, muitas graças e indulgencias a quem auxiliasse e protegesse os frades.

Daremos aqui textualmente aquella provisão, por ser um documento curioso para os tempos d’hoje, e interessantíssimo para a historia das tormentas que em breve rebentariam: [3]

«Pedro, pola paciência de Deos, Bispo do Porto, a todos os moradores deste nosso Bispado, assi Ecclesiaticos, como Seculares, saúde, e acrescentamento em bem fazer. Sabereys que nós recolhemos nesta nossa Cidade para morarem nella, os Frades Pregadores, com consintimento e gosto dos Cónegos, e de todos os Cidadaons, tendo por certo que a sua companhia he necessária, e há-de ser de proveito temporal, e espiritual para todos os moradores da cidade e Bispado. Pela qual rezão, visto como os Religiosos não possuem nenhuma cousa de proprio, nem podem compor sua Igreja, e fabricar as casas, de que tem necessidade, sem vossa e minha ajuda, rogamo-vos a todos, e em remissão de vossos pecados, vos encarregamos, que mostreis com elles facildiade, e devoção, assi em os ajudar a cortar, e ajuntar a madeyra, como no carreto da pedra necessária para a obra, conforme aquillo: Pera si edifica, quem a Deos faz casa. E por tanto confiando nós plenissimamente na misericórdia de Deos a todos aquelles que fielmente lhes acudirem no colher da madeyra, e carregar da pedra: ou lhes derem por si, ou por outrem, hum dia de trabalho na obra, concedemos quarenta dias de perdão das penitencias que lhe forem impostas. Dada no Porto a 6 de Março da era de 1276 (1238 de Christo). Valha por tempo de dois annos.»

Todos se apressaram a auxiliar os frades, e o próprio prelado lhes deu para alargamento da fabrica uns chãos contíguos, que eram propriedade sua; mas (diz a chronica) «ou fosse que o clero entrasse de ciúmes das grossas esmolas que corrião ao convento, e julgasse de algumas que começaram a entrar por enterros, benesses e legados de testamentos (como na cidade ao tempo ainda havia apenas um freguezia – a da Sé) que tudo o que hia para os frades, era como água furtada á herdade dos clérigos, ou fosse inveja….ou tudo junto» bispo e cabido, reconsiderando, embargaram as obras, e por um notário apostólico, o prelado os mandou intimar para que não mais pregassem, nem confessassem, nem celebrassem missa, nem qualquer outro officio divino.

Ficaram os bons dos frades slenemmente perplexos e de braços cruzados, mas o povo pronunciou-se por elles e correu com mais fervor a tratar da obra, como cousa sua, o que o prelado obviou de prompto, fulminando com censuras todos os que dessem favor, ajuda ou conselho para a continuação das obras!!….

Instaram com o bispo e cabido, varias pessoas das mais auctorisadas do Porto, para que não hostilisassem os f´rades; secundaram o mesmo pedido a santa Rainha D. Mafalda, tia d’el rei, ao tempo D. Sancho II, e o arcebispo de Braga D. Silvestre, mas nada conseguiram. Declararam os cónegos insanavelmente nullas varias doações feitas por particulares ao convento, de bens foreiros ao cabido, e rescindiram escripturas de vendas de terrenos feitas por elles aos frades.

Em tão grande aperto, dirigiram-se estes ao romano pontífice, então Gregório IX, que proveu logo no caso, com um breve que dirigiu ao arcebispo de Braga, para que este fizesse saber ao bispo e cabido do Porto, que S. Santidade muito estranhava o seu procedimento, e lhe rogava e admoestava, com rigoroso preceito de santa obediência, que deixasse os frades em paz, e levantassem dentro de 8 dias depois de feita esta intimação, o interdicto e mais censuras fulminadas contra os benfeitores do convento, e não mais molestassem os frades, nem consentissem que alguém os molestasse; e que, quando o bispo e cabido recalcitrassem, dava plenos poderes a elle arcebispo, para levantar as censuras impostas, sem apellação, e para, em nome da Santa Sé, reprimir qualquer nova aggressão contra os dictos frades. Dado em Anagnia aos 24 de Setembro de 1238.

Recebido o breve apostólico, ainda tentou o arcebispo congraçar amigavelmente com os frades o bispo e o cabido, mas, o menos que estes pediam por ultimo era – que os frades não dessem na sua egreja sepultura geral nem particular, nem recebessem offertas, - o que visto pelo primaz, publicou o breve, e logo o bispo e o cabido cederam, e não mais ousaram inquietar os frades. Por esta ocasião, já no anno de 1293 [1239], el-rei D. Sancho II, por uma provisão, se declarou auctor, fundador e padroeiro do dito Convento.

Em virtude d’esta provisão e d’aquelle breve, subiu de ponto a consideração para com os frades, e as obras se desenvolveram como por encanto, povoando-se logo a casa de grande numero de frades, que não cessavam de pregar e doutrinar, no convento, na cidade e fora d’ella.

Passados 60 annos (em 13 de Setembro de 1300) confirmou D. Diniz, por outra provisão aquella de D. Sancho, e de novo declarou este convento do padroado real. «Pelo que (diz a provisão de D. Diniz) mando e defendo que ninguém ouse fazer mal ou força a este Mosteiro, nem a estes frades, nem a seus homens, nem a suas agoas, nem a cousa alguma que lhe pertença. E aquelle que tal fizer eu o considerarei meu inimigo e pagará seis mil soldos, e em dobro o prejuízo causado ao Mosteiro».

Viam-se também sobre o arco da capella-mór d’este mosteiro as espheras d’el rei D. Manuel, o que tudo prova que esta casa era do padroado real; mas não há memoria de que os nossos reis lhe dessem, como deram a outros muitos, rendas ou bens alguns da coroa; apenas a rainha Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, deu ao bispo e cabido do Porto a egreja de Santa Cruz, que era do padroado d’esta rainha, nas margens do Leça, e isto em compensação das perdas e dannos que o estabelecimento d’este mosteiro podessem sofrer o bispo e o cabido, e para não mais se repetissem querelas e aggravos similhantes.

Congraçou-se lealmente o bispo com os frades, e de seu perseguidor, se converteu em benfeitor, dando-lhes avultadas esmolas, e nomeadamente, em 1245, agua de herdades suas, para abastecimento do mosteiro. Deu-lhes também agua Domingos Gonçalves Ferreira; e a melhor, os frades franciscanos, pela licença concedida pelos dominicos para a conduzirem atravez da cerca d’estes.

Apenas terminaram as querellas movidas pelo bispo e cabido, mandaram os frades lagear a sua egreja, cravejando-a de sepulturas, que foram logo requeridas á competência, e porque já não podiam satisfazer aos requerentes, o prior do convento, D. fr. Pedro Esteves, mandou levantar um grande alpendre, cobrindo o adro, que logo se encheu também de sepulturas, servindo ao mesmo tempo de recreio e praça ou casa de negocio, á imitação das grades da Sé em Sevilha. O alpendre de S. Domingos, por estar ao abrigo da chuva e do sol, e por ser ponto muito central da cidade, e haver n’ella falta sensível de edifficios para repartições publicas (falta bem sensível ainda hoje, 1877) serviu muitos annos de tribunal, e alli os juízes ouviam e despachavam as partes. Sobre o vão tomado pelo alpendre, se levantou mais tarde a fachada norte e principal do convento, única parte que poude salvar-se á voracidade das chammas que consumiram todo o vasto edifício.

N’esta fachada do convento está montada a Caixa Filial do Bancod e Portugal, e o vão restante, que era tomado pela cerca, egreja e casa dos frades e dos extinctos terceiros dominicos, tendo passado para a fazenda, com a extinção dos conventos, em 1834, foi pelo governo cedido parte para a abertura da rua Ferreira Borges, e o restante dividido em lotes, e arrematado por diversos, para edificações particulares e casas bancárias, achando-se n’esta data (Maio de 1877) já feitas, n’aquelle terreno, em seguida á Caixa Filial do Banco de Portugal, magnificas casas sobre a rua Ferreira Borges, e sobre a nova rua de S. Domingos.

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Em 1448, se instituiu na egreja d’este convento, uma confraria com a invocação do Senhor Jesus, por causa da qual se suscitaram litígios impertinentes, que duraram seis annos; e que o chronista por prudência calla, dizendo apenas que se houve por milagre, obterem os religiosos sentença favorável. Menciona, em seguida, varias curas miraculosas, attribuidas á toalha que envolvia a imagem do Senhor Jesus, patrono d’aquella confraria, e que Maria Gonçalves foi uma das felizes creaturas curadas, no 1º de Janeiro de 1575, pela aproximação da toalha do Senhor.

Junto á egreja d’este convento, havia um ermida antiquíssima, para qual se subia por uma escadaria muito íngreme e de muitos degraus, e suppõe o chronista, ser esta a egreja que o bispo D. Pedro offerecia aos frades, na mensagem que mandou ao capitulo de Lugo, e n’aquella ermida, ou egreja velha, existiu muitos annos uma confraria, que n’ella instituíram os mercadores da cidade, por contracto feito com os frades, em 1556.

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Entre os religiosos d’este convento, avultaram, além dos fundadores, fr. Gualter e fr. Domingos Gallego – o religioso fr. Domingos do Porto, natural d’esta cidade, pessoa de tanta illustração e virtude, que o papa Nicolau 3º, o escolheu para seu penitenciário, em Roma, e no mesmo cargo o conservaram os papas Celestino 5º e Bonifácio 8º - e de Roma enviou, para este convento, sommas fortes, peças e álfayas ricas, sobresahindo um grande caliz dourado, com lavores e esmeraldas, e um paramento de subido preço.

Foi também capellão do summo pontífice um outro religioso d’este convento, por nome fr. Álvaro do Porto.

A rainha Santa Mafalda, fundadora do mosteiro d’Arouca, onde jaz sepultada, deixou em testamento, a este msoteiro de S. Domingos, uma notável relíquia (do Santo lenho) declarando que fora de Santa Helena – outra de S. Braz – duzentos morabitinos e cem medidas do melhor pão do seu celleiro de Bouças, instituindo por seu testamenteiro a fr. Gualter, um dos dois primeiros frades que se albergaram n’esta casa.

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De tempo immemorial, hia todos os dias um religioso d’este convento, à Sé, leccionar casos de consciência, aos clérigos e seculares, e por este trabalho, davam os bispos ao convento uma esmola perpetua; e por comissão do inquisidor-geral, hia também um frade, d’este convento, visitar todos os navios estrangeiros, que ancoravam no Douro, principalmente os que vinham de terras suspeitas a heresia, para se evitar a entrada de livros ímpios.

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Na egreja d’este covnento, tinham carneiros e sepulturas distinctas, os Pachecos Pereiras (de Bello-Monte) do Porto, e alli forma sepultadas muitas pessoas d’esta família.

(Vide n’este mesmo artigo, Pachecos Pereiras, do Porto.)

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Havia também n’esta egreja, do lado do Evangelho, um rico tumulo de mármore branco, sustentado por quatro leões também de mármore, e n’este tummulo jazia o bispo do Porto, D. fr. Aleixo, que tinha sido d’esta ordem.

Não se sabe como desappareceu esta obra d’arte. Suppõe-se que foi roubada e vendida a estrangeiros!…..

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Este mosteiro foi em parte devorado por um incêndio em 1777, e durante o cerco do Porto, em 1832, outro incêndio maior, o devorou quasi todo, restando pouco mais do que a fachada norte, alugada no 1º de Junho de 1834, pelo Banco de Portugal, para n’elle estabelecer, como estabeleceu, a sua Caixa Filial; e para o mesmo fim, comprou aquella parte do edifício, quando foi pelo governo posto em praça, com vários chãos, ao longo da rua Ferreira Borges, em 1865. Fez em seguida, o Banco de Portugal, obras importantes na casa que arrematou, e por essa occasião foi apagada uma inscripção latina, que estava na frente do edifício, e que em vulgar dizia:

ESTA ORDEM FUNDOU A EXPENSAS SUAS,

EM SAGRADO ATRIO, ESTE EDIFICIO NOTAVEL

PELAS MARAVILHAS D’ARTE

Também foi apeado o emblea da ordem, que rematava e decorava a frente.

Nas escavações feitas em 1866, no sitio do convento, achou-se uma pedra, de 2m42 de comprido, sobre 1m32 de largura, e 0m28 de espessura, com a inscripção seguinte:

S. DO LETTRº FRANCISCO DE MATOS,

CIDADÃO DESTA CIDADE,

E ADVOGADO DOS VINTE DA RELAÇÃO D’ELLA,

E DE SUA MULHER

LUIZA PAIVA SOARES,

E SEUS DESCENDENTES

E SUCESSORES D’ESTA CAPPELA.

1660

A fonte que hoje se vê no jardim publico de s. Lazaro, pertenceu a este convento, e d’elle forma também as mesas de mármore que estão no museu da Bibliotecha Publica.

Existiu e funcionou muitos annos, em capella e casas próprias, a ponte d’este convento, a Ordem Terceira de S. Domingos, que em conesquencia das grandes questões, entre ella e os frades, foi suprimmida pelo romano pontífice, mas logo no mesmo anno restaurada, como Ordem da Santíssima Trindade, sem sujeição alguma aos frades; e como estes se houvessem assenhoreado da sua capella, depois da restauração, passou a dita ordem, provisoriamente, para a capella próxima de S. Chrispim, na Biquinha, e d’alli para a capela da Batalha, d’onde passaram para a capelinha do Senhor Jesus do Calvário Novo, na Cordoaria, e d’alli para o largo do Laranjal, onde levantaram a magestosa fabrica que alli se vê, e que deu á velha praça do Laranjal, o nome que hoje tem – Praça da Trindade.

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(Dr. Pedro Augusto Ferreira,

Abbade de Miragaia.)

In Portugal Antigo e Moderno, vol. 7º, Lisboa, 1877


[1] Chonica de S. Domingos por Fr. Luiz de Cacegas, correcta e augmentada por Fr. Luiz de Sousa, 1ª parte, liv. 3º, pag. 283 e seguitnes.

[2] (Vide Monte-Junto, a pag. 478, col. 2ª in fine, do 5º vol.)

[3] Aquella provisão foi publicada em latim, mas nós a damos em vulgar, como a traduziu Fr. Luiz de Sousa….

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